JOÃO PEREIRA COUTINHO

Ligados à máquina


Minha perversidade não é um traço de mau-caráter.É, quando muito, uma experiência sociológica


A PERVERSIDADE é o único desporto que pratico. Com regularidade. Um exemplo: alguém me apresenta uma celebridade, dessas que são conhecidas por serem conhecidas, e eu finjo que nunca ouvi falar. “Como é mesmo o seu nome?”
O personagem em causa repete o nome, como se tivesse escutado uma heresia. O rosto não mente: a estupefação profunda; o naufrágio iminente; por vezes, a revolta silenciosa, dolorosa; mas, em todos os casos, uma velha insegurança, que vem das profundezas da alma.
Às vezes, quando estou em forma, subo a parada. A pessoa repete o nome. E eu, propositadamente, troco a profissão. Se é um cantor, digo que já o vi numa novela. Se é um ator, confundo com um cantor. É o golpe final na vaidade da criatura.
A minha perversidade não é um traço de caráter. De mau-caráter. É, quando muito, uma experiência sociológica: as pessoas podem ter todos os aplausos do mundo; podem ter legiões de assessores, adoradores e puros escravos; mas se não existe uma personalidade segura e forte por detrás da máscara, qualquer pequena pedra na engrenagem faz tremer e descarrilar a máquina. Eu sou essa pequena pedra.
A perversidade, dizia, é o único desporto que pratico. Mas nunca esperei encontrar um irmão gêmeo em Michael Foley. Encontrei.
Michael Foley é um filósofo britânico e o seu “The Age of Absurdity” (Simon & Schuster, 260 págs.), que li às gargalhadas numa sala de aeroporto, é um prodígio. Não de filosofia, porque o livro não pretende ser um tratado filosófico. É apenas uma observação perspicaz das nossas loucuras contemporâneas.
E, a páginas tantas, Foley descreve a forma como as celebridades inglesas reagem sempre que ele finge ignorar quem elas são. De fato, a vaidade da natureza humana é igual em qualquer língua.
Nem poderia ser de outra forma. O Ocidente rico e pós-ideológico vive mergulhado numa combinação mortal de desejo permanente e insatisfação permanente. Queremos sempre tudo. Queremos sempre mais. Pior: sentimos que merecemos tudo e temos direito a mais. Mais dinheiro. Mais amor. Mais sexo. Mais reconhecimento. Mais, mais, mais.
Mas, precisamente por querermos sempre tudo e sempre mais, nada do que temos resolve a nossa agônica impermanência.
Nada disso é novo: não existe religião ou filosofia clássica, a começar pela estoica, que não tenha relatado os dramas dessa “dança macabra”: a dança do desejo e da sua perpétua insatisfação.
A originalidade de Foley está em aplicar essa verdade aos aspectos mais anódinos do nosso cotidiano, mostrando a “dança” em funcionamento. Nas escolas. Nos lugares de trabalho. E até nas relações pessoais, onde aplicamos o mesmo raciocínio que preside às nossas idas ao shopping do bairro. Se podemos comprar tudo, por que motivo a pessoa que vive ao nosso lado não nos pode fornecer tudo também?
Michael Foley não fica no diagnóstico. Sugere terapia para aliviar essa estranha condição de nos sentirmos como lixo apesar de vivermos em condições materiais com que os nossos antepassados apenas sonhavam.
Mas aqui reside o primeiro mito: a riqueza material é importante; mas, a partir de um certo grau de conforto, a droga não resulta mais.
Robert Nozick, outro filósofo citado por Foley, sabia disso: 30 anos atrás, Nozick pedia-nos que imaginássemos as nossas vidas ligadas a uma máquina. E a máquina simularia experiências altamente satisfatórias, capazes de substituir o vale de lágrimas onde nos arrastamos.
A conclusão de Nozick é glacial: jamais aceitaremos trocar a vida imperfeita que temos pela vida perfeita que a máquina nos concede. Jamais aceitaremos trocar a autenticidade por uma farsa, mesmo que a farsa seja aprazível.
Foley concorda com Nozick. Eu concordo com ambos. Em teoria, e nos momentos de ócio ou desespero, podemos abominar as dificuldades; as responsabilidades; e, no limite, a nossa perturbante mortalidade.
Mas, paradoxalmente, é a dificuldade, a responsabilidade e a consciência do fim que tornam as nossas vidas significativas. “Tudo que é importante é difícil”, escreve Foley.
Ou, por outras palavras, de que vale uma máquina de experiências perfeitas se nenhuma dessas experiências foi realmente conquistada e merecida?
Desconfio que as celebridades ocas que encontro com frequência teriam muito a aprender se, de vez em quando, desligassem a sua vaidade da máquina. E viessem cá para fora viver.

jpcoutinho@folha.com.br

 

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CONTARDO CALLIGARIS

A coerência é um valor moral?


A coerência é o último refúgio de quem tem pouca fantasia e, talvez, de quem tem pouca coragem


NO FIM de semana retrasado, estive em Olinda, na Fliporto (Feira Literária Internacional de Pernambuco). No sábado, Benjamin Moser, que escreveu uma linda biografia de Clarice Lispector (“Clarice,”, Cosac Naify), lembrou que, na famosa entrevista concedida à TV Cultura em 1977, a escritora afirmou que não fizera concessões, não que soubesse.
Moser acrescentou imediatamente que ele não poderia dizer o mesmo. E eis que o público se manifestou com um aplauso caloroso.
Talvez as palmas de admiração fossem pela suposta coerência adamantina de Clarice, que nunca teria feito concessões na vida. Talvez elas se destinassem a Benjamin Moser pela admissão sincera de que ele (como todos nós) não poderia dizer o mesmo que disse Clarice.
Tanto faz. Nos dois casos, o pressuposto é o mesmo. Que as palmas fossem pela força de caráter de Clarice ou pela honestidade de Moser ao reconhecer sua própria fraqueza, de qualquer forma, não fazer concessões parecia ser, para os presentes, uma marca de excelência moral.
A pergunta surgiu em mim na hora: será que é mesmo? Posso respeitar a tenacidade corajosa de quem se mantém fiel a suas convicções, mas no que ela difere da teima de quem se esconde atrás dessa fidelidade porque não sabe negociar com quem pensa diferente e com o emaranhado das circunstâncias que mudam? Aplicar princípios e nunca se afastar deles é uma prova de coragem? Ou é a covardice de quem evita se sujar com as nuances da vida concreta?
Como muitos outros, se não como todo mundo, cresci pensando que não fazer concessões é uma coisa boa.
Fui criado na ideia de que há valores não negociáveis e mais importantes do que a própria vida (dos outros e da gente). Talvez por isso me impressionasse a intransigência dos mártires cristãos (embora eu tivesse uma certa simpatia envergonhada por Pedro renegando Jesus para evitar ser reconhecido e preso).
Durante anos admirei os bolcheviques por eles serem homens de ferro (a expressão é de Maiakóvski, nada a ver com “Iron Man”) e desprezei Karl Kautsky, que Lênin estigmatizou para sempre como “o renegado Kautsky”, por ele ter mudado de opinião sobre a Primeira Guerra, sobre a revolução proletária, sobre o bolchevismo etc.
Vingança da história: Lênin se tornou quase ilegível, mas a obra principal de Kautsky, que acaba de ser traduzida, “A Origem do Cristianismo” (Civilização Brasileira), continua crucial.
Mas voltemos ao assunto. Hoje, estou mais para Kautsky do que para bolchevique; até porque descobri, desde então, que Mussolini se vangloriava gritando: “Eu me quebro, mas não me dobro”. Ele se quebrou mesmo, enquanto eu me dobro e posso renegar ideias minhas que pareçam ser, de repente, inadequadas ao momento (dos outros, do mundo e meu).
Olhando para trás, descubro (com certo orgulho) que, ao longo da vida, fiz inúmeras concessões, inclusive na hora de escolhas fundamentais. Poucas vezes lamentei não ter sido coerente. Mas muitas vezes lamento não ter sabido fazer as concessões necessárias, por exemplo, na hora de ajustar meu desejo ao desejo de pessoas que amava e de quem, portanto, tive que me afastar.
Alguém dirá: espere aí, então a fidelidade a princípios e valores não é uma condição da moralidade?
Estou lendo (vorazmente) “O Ponto de Vista do Outro”, de Jurandir Freire Costa (Garamond). O livro é, no mínimo, uma demonstração de que a forma moderna da moral não é o princípio, mas o dilema. E, no dilema, o que importa não é a fidelidade intransigente a valores estabelecidos; no dilema, o que importa é, ao contrário, nossa capacidade de transigir com as situações concretas e com os outros concretos.
A coerência é uma virtude só para quem se orienta por princípios. Para o indivíduo moral, que se orienta (e desorienta) por dilemas, a coerência não é uma virtude, ao contrário, é uma fuga (um tanto covarde) da complexidade concreta. Oscar Wilde, que é um grande fustigador de nossas falsas certezas morais, disse que “a coerência é o último refúgio de quem tem pouca fantasia” e, eu acrescentaria, de quem tem pouca coragem.
Resta absolver Clarice. Aquela frase da entrevista era, provavelmente, apenas uma reverência retórica a um lugar-comum de nosso moralismo trivial.

ccalligari@uol.com.br

 

“… ajudai-me a buscar a beleza interior e

fazer com que as coisas exteriores se harmonizem com a beleza espiritual”.

Sócrates, em Fredo

 

 

Há tempos não tenho me dedicado a algo que me dá muito prazer: escrever. Colocar a minha frente pensamentos e reflexões sobre minhas angústias, meus medos, minhas frustrações. Dificilmente escrevo quando estou em pleno estado de graça ou de felicidade; isso se dá quando compartilho este estado com amigos em prazerosas mensagens. Mas com certeza, com muito menos introspecção e muito mais espontaneidade do que como o faço agora. Quando decido sentar e me por a escrever, rondo as idéias, começo a criar coragem. Me preparo. Tomo fôlego. E se a coragem ainda falta, a simples sensação de botar tudo pra fora me excita. E hoje preciso disso. De forma mais assertiva e prática. É parte daquilo que necessito para recobrir minha paz.

Há um sentido para a vida. Sei disso. Sei também que ele é único e individual. Só não parecia ser tão incerto. E é essa incerteza que quase nos mata. Confuso e caótico, corrói que chega a destruir. Na realidade, desconstrói. Todas as suas certezas caem por terra. Difícil lidar com tudo isso. E se a resposta é “sempre” quando perguntamos “até quando?”, nos conforta saber que, à medida que aprendemos com cada uma de nossas experiências, lidamos mais facilmente com algo sem explicação. O inexplicável pode sempre acontecer e talvez ser capaz de dar novo sentido à vida. É sempre bom ter essa possibilidade em mente.

Resta dizer então que eu o amo. Mais do que um dia imaginei que pudesse amar alguém. E se chega a todos que se arriscam, esse dia chegou para mim. Enfim arrisquei. E isso implica sofrer; que implica aprender, sentir, mudar, crescer, viver, amar. Nada me fora prometido. Abandonei minhas certezas e vícios. E livre, apostei alto. Infinito. Só agora entendo que infinito não é ser eterno. É ser intenso, integral, forte.

Resta acreditar que se o amo, que o deixe ir. Que permaneça em minha memória, em um canto especial do meu coração. Que bom que tenho de quem me lembrar, de quem sentir saudades e a quem agradecer por ter feito parte da minha história e por me ajudar a ser quem hoje sou, este conjunto de retalhos da vida que passou… e que segue, sem saber ao certo onde se está indo, com a certeza de que não se está perdido.

 

CONTARDO CALLIGARIS

Despedidas virtuais


Você já terminou um relacionamento pela internet ou por uma mensagem de celular?


NO SÁBADO passado, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, Xico Sá, Bebel Bertuccelli e eu comentamos os resultados de uma pesquisa, realizada pela Nokia, sobre a relação dos brasileiros com as ferramentas sociais da era digital.
Uma das perguntas da pesquisa dizia: “Você já terminou ou já terminaram um relacionamento com você via internet ou por mensagem de celular?”.
Responderam positivamente 15% dos entrevistados. Já antes do debate, essa história de namoros terminados com uma mensagem virtual fez que eu fosse repetidamente consultado: o que achava desse horror tecnológico, hein?
Pois é, tendo a considerar esse tipo de despedida virtual com uma certa simpatia.
1) Em geral, aceitamos que, para muitos homens e mulheres, seja mais fácil encontrar alguém no mundo virtual do que no mundo real. Entendemos, por exemplo, que, na hora de seduzir, os tímidos, retraídos, acanhados ou inibidos soltem mais facilmente os dedos no teclado do que a palavra num encontro cara a cara.
Nota: seria injusto contrapor os que preferem o virtual aos que preferem o real como se os primeiros fossem mentirosos e, os segundos, honestos e sinceros. Virtual ou real, o encontro inicial é quase sempre um jogo em que se trata de convencer o outro de que somos alguma coisa que nem nós acreditamos ser. Quem prefere teclar talvez se esconda graças à distância, mas quem prefere falar ao vivo não abre sua alma: apenas desprende a lábia.
2) Se aceitamos que o virtual facilite a abordagem e as primeiras trocas, por que não deixaríamos que o virtual facilite também as despedidas? De fato, o virtual permite que os tímidos, os retraídos etc. declarem sua vontade de se separar, e isso sem medo de encarar torneios verbais que eles perderiam e que produziriam tentativas culpadas, penosas e infinitas de “reatar mais uma vez”.
3) No começo de uma relação amorosa, o virtual talvez sirva para mentir melhor; no fim de um amor, ele pode ajudar a dizer a verdade, ou seja, a reconhecer, enfim, que uma relação está continuando apenas como mentira compartilhada.
4) Em média, a dificuldade em “encontrar alguém” não é maior do que a dificuldade em se separar quando uma relação não vale mais a pena.
5) Os tempos de solidão, durante a procura frustrada de um parceiro ou de uma parceira, são tão longos quanto os tempos de solidão de parceiros que vivem sem paixão, sem amizade e, às vezes, no rancor.
6) A insatisfação de quem procura um amor é esperançosa, enquanto a vida dos que não conseguem se separar é resignada.
7) Um SMS ou um e-mail de despedida podem surpreender quem os recebe, mas só como a revelação de algo que ele já sabia e, por alguma covardia, não confessava nem a si mesmo: ninguém termina virtualmente um amor que não esteja realmente morto.
8 ) Às vezes, sobretudo (mas não só) nas mulheres, a reação de quem recebe a mensagem de despedida é um pensamento delirante: o outro se separa de mim por SMS porque, se aparecesse na minha frente, ele teria que se render ao amor que ele ainda sente por mim (ele não sabe, mas eu sei que ele sente). Nesse caso, salve-se quem puder.
9) Toda separação é, no mínimo, a perda de um patrimônio comum de experiências e memórias. A dor dessa perda é frequentemente projetada no outro: digo que não posso ou não ouso me separar por e-mail ou SMS porque não quero machucar o outro, enquanto, de fato, é minha dor que quero evitar -com isso, eternizo o declínio da relação e o sofrimento do casal.
10) A convivência numa relação morta é um limbo confortável: para ambos, uma espécie de trégua do desejo. A separação apavora com a perspectiva de voltar a desejar. Antes de mandar um fatídico SMS, alguém hesita: “Vai ser difícil voltar à ativa com a minha idade” -e vai ser mesmo. Ou, então, pergunta: “E se eu ficar sozinho?”; resposta: “Mas você já está sozinho, há tempos”.
Moral da história. É bom tentar tudo o que der para que uma relação vingue. Quando ela não vinga (mais), é bom ousar se separar. E deveríamos agradecer os parceiros que nos mandam um SMS lacônico e brutal, “Valeu, beijão e sorte”. Pois, desprendendo-se, eles nos libertam e encurtam um processo no qual poderíamos perder anos da vida.

 

 

Os Barcos

Legião Urbana

Composição: Renato Russo

 

 

Você diz que tudo terminou
Você não quer mais o meu querer
Estamos medindo forças desiguais
Qualquer um pode ver
Que só terminou pra você

São só palavras teço, ensaio e cena
A cada ato enceno a diferença
Do que é amor ficou o seu retrato
A peça que interpreto,um improviso insensato
Essa saudade eu sei de cor
Sei o caminho dos barcos

E há muito estou alheio e quem me entende
Recebe o resto exato e tão pequeno
É dor, se há, tentava, já não tento
E ao transformar em dor o que é vaidade
E ao ter amor, se este é só orgulho
Eu faço da mentira, liberdade
E de qualquer quintal, faço cidade
E insisto que é virtude o que é entulho
Baldio é o meu terreno e meu alarde
Eu vejo você se apaixonando outra vez
Eu fico com a saudade e você com outro alguém

E você diz que tudo terminou
Mas qualquer um pode ver
Só terminou pra você
Só terminou pra você

 

Impermanência

 


 

Além de ser uma obra notável e abrangente, o mestre de meditação budista e conferencista internacional Sogyal Rinpoche aproxima a sabedoria milenar do Tibet à moderna pesquisa sobre a morte, o morrer e a natureza do universo. Com uma competência sem precedentes, torna acessível a majestosa visão da vida e da morte que permeia o clássico Livro Tibetano do Viver e do Morrer (Editora Palas Athena). Sogyal Rinpoche apresenta práticas simples, mas poderosas, oriundas da tradição tibetana, que qualquer um — não importa a formação ou religião que professe — pode realizar para transformar sua vida, preparar-se para a morte e auxiliar os que estão morrendo.  

Destaca a esperança que há na morte: indo além da negação e do medo, podemos descobrir aquilo que há em nós de imutável, e que nos faz sobreviver ao fim. Oferece ainda uma introdução lúcida e inspiradora à prática da meditação, ao karma e ao renascimento, bem como às provações e recompensas do caminho espiritual.

 

Por que é tão difícil praticar a morte e praticar a liberdade? E por que temos tanto medo da morte que evitamos por completo olhar para ela? De algum modo, no fundo, sabemos que é impossível evitar encará-la para sempre. Sabemos que, nas palavras de Milarepa, “essa coisa chamada ‘cadáver’, que tanto nos apavora, vive conosco aqui e agora”. Quanto mais adiamos esse encontro, quanto mais o ignoramos, maior é o medo e a insegurança que surgem para nos perseguir… Quanto mais tentamos fugir do medo, mais monstruoso ele se torna.

A morte é um vasto mistério, mas há duas coisas que é possível dizer a seu respeito: é absolutamente certo que morrermos um dia e é absolutamente incerto quando e onde essa hora vai chegar. Então, a única certeza que temos é essa incerteza sobre o instante da nossa morte, a que agarramos para adiar encará-la diretamente. Somos como crianças que fecham os olhos no jogo de esconde-esconde e pensam que assim ninguém pode vê-las.

 

O nascimento de um homem é o nascimento de sua dor. Quanto mais ele vive, mais estúpido se torna, porque sua ansiedade para evitar a morte inevitável torna-se mais e mais aguda. Que amargura! Ele vive por aquilo que está sempre fora do seu alcance! Sua sede de sobreviver no futuro faz com seja incapaz de viver no presente. (Chuang-Tsu)

 

A maior parte de nós vive assim, de acordo com um plano pré-ordenado. Passamos a juventude sendo educados. Achamos então um emprego e encontramos alguém com quem nos casamos e temos filhos. Compramos uma casa, tentamos ser bem-sucedidos em nosso negócio e lutamos por sonhos como os de possuir uma casa de campo ou um segundo carro. Saímos de férias com os amigos. Planejamos nossa aposentadoria. Os maiores dilemas com que muitos de nós nos defrontamos são onde vamos passar o próximo feriado ou quem convidaremos para o Natal. Nossas vidas são monótonas, insignificantes e repetitivas, desperdiçadas em busca de banalidades, porque parece que não conhecemos nada melhor.

O ritmo das nossas vidas é tão febril que a última coisa em que temos tempo de pensar é na morte. Abafamos nosso medo secreto da impermanência, cercando nossa vida de mais e mais bens, de mais e mais coisas, de mais e mais confortos, só para nos tornarmos escravos de tudo isso. todo nosso tempo e energia se exaurem simplesmente para manter coisas. Nossa única meta na vida logo se torna manter tudo tão seguro e garantido quanto possível. Quando mudanças ocorrem, encontramos o remédio mais rápido, alguma solução astuta e temporária. E assim nossas vidas transcorrem, a menos que uma doença séria ou um desastre nos arranquem do nosso estupor.

 

Há diferentes tipos de ociosidade: a oriental e a ocidental. O estilo oriental é aquele praticado à perfeição na Índia. Consiste em ficar ao sol o dia todo, sem fazer nada, evitando todo trabalho ou atividade útil, tomando xícaras de chá, ouvindo músicas de filmes hindus martelando no rádio e tagarelando com amigos. A ociosidade ocidental é muito diferente. Ela consiste em abarrotar nossas vidas de atividade compulsiva, de modo que não sobre tempo para o confronto com os verdadeiros problemas.

Se observarmos nossa vida, veremos claramente quantas tarefas sem importância, as assim chamadas “responsabilidades”, se acumulam para preenchê-la. Um mestre chega a compará-las a “fazer faxina em um sonho”. Dizemos a nós mesmos que queremos empregar o tempo nas coisas importantes da vida, mas nunca temos esse tempo. Mesmo no simples levantar-se pela manhã, há tanto o que fazer: abrir a janela, fazer a cama, tomar banho, escovar os dentes, alimentar o cachorro ou o gato, lavar a louça da véspera, descobrir que o açúcar ou o café acabou, sair para comprá-lo, fazer o café da manhã #&$151; a lista é interminável. Aí há roupa para arrumar, escolher, passar e dobrar de novo. E que dizer do cabelo ou da maquiagem? Incorrigíveis, vemos nossos dias se encherem de telefonemas e projetos insignificantes, com tantas responsabilidades — ou devemos chamá-las de “irresponsabilidades”?

 

O termo tibetano para designar corpo é , que significa “algo que você deixa para trás”, como bagagem. Cada vez que dizemos “lü”, isto nos lembra que somos apenas viajantes, temporariamente abrigados nesta vida e neste corpo. Assim, no Tibet as pessoas não se distraíam muito gastando o tempo que tinham em tentar tornar mais confortáveis suas circunstâncias externas. Elas estavam satisfeitas se tivessem o bastante para comer, roupas sobre o corpo e um teto sobre suas cabeças. Continuar pensando obsessivamente em melhorar as próprias condições, como fazemos no ocidente, pode tornar-se um fim em si mesmo e uma distração sem sentido. Pode alguém no seu juízo perfeito pensar em redecorar seu quarto de hotel a cada vez que faz uma reserva? Adoro esse trecho em que Patrul Rinpoche aconselha:

Lembre-se do exemplo de uma velha vaca
Feliz da vida por dormir em um celeiro.
Você precisa comer, dormir e defecar —
Isso é inevitável —
E tudo mais já não lhe diz respeito.

Às vezes penso que a maior aquisição da cultura moderna é sua brilhante promoção do samsara e suas estéreis distrações. A sociedade moderna me parece uma celebração de todas as coisas que nos afastam da verdade, fazendo difícil viver para ela e desencorajando as pessoas até mesmo de acreditar que ela existe. E pensar que tudo isso brota de uma civilização que alega adorar a vida, mas de fato priva de qualquer significado real; que fala sem parar sobre fazer as pessoas “felizes”, mas de fato impede seu caminho para a fonte da verdadeira felicidade.

Esse samsara moderno alimenta-se de ansiedade e depressão que ele próprio fomentara, e para as quais nos treina e cuidadosamente nutre com um mecanismo de consumo que precisa manter-nos ávidos para continuar funcionando. O samsara é altamente organizado, versátil e sofisticado. Investe sobre nós de todos os lados com sua propaganda, criando à nossa volta uma cultura de dependência quase inexpugnável. Quanto mais tentamos escapar, mais nos sentimos enredar nas armadilhas que ele tão engenhosamente nos prepara. Como dizia no século XVIII o mestre tibetano Jigme Lingpa: “Hipnotizados pela mera variedade de percepções, os seres vagam infinitamente perdidos no círculo vicioso do samsara.”

 

Pense no que pode acontecer conosco, mais dia menos dia. Vamos perambulando pela rua vagando em inspirados pensamentos, especulando sobre coisas importantes ou simplesmente ouvindo nosso walkman. De repente, um carro passa por nós a toda velocidade e quase acaba com tudo.

Veja a televisão ou dê uma olhada nos jornais: a morte está em toda parte. Será que as vítimas desses acidentes de avião e de carro esperavam morrer? Elas davam a vida como certa, assim como nós. Quantas vezes ouvimos casos de conhecidos, até de amigos, que morrem inesperadamente? Nem precisamos estar doentes para morrer: nossos corpos podem simplesmente falhar e parar de funcionar, do mesmo modo que nossos carros. Podemos estar muito bem num dia e cair de cama e morrer no outro. Milarepa cantava:

Quando você é forte e saudável
Não pensa que a doença pode vir,
Mas ela chega com força repentina
Como o irromper do relâmpago.

Envolvido com as coisas do mundo,
Você não vê que a morte se aproxima;
Rápida ela chega como o trovão
Desabando sobre a sua cabeça.

Às vezes precisamos nos sacudir e nos perguntar de fato: “E se eu morrer esta noite, o que vai ser?” Nunca sabemos se vamos acordar no dia seguinte, ou onde. Se você expira e não pode voltar a inspirar, está morto. É mesmo simples assim. Como diz um ditado tibetano: “Amanhã ou a próxima vida — o que vem primeiro, nunca se sabe.”

 

É importante refletir com calma, muitas e muitas vezes, que a morte é real, e chega sem aviso. Não faça como o pombo do provérbio tibetano, que passa toda a noite fazendo barulho, preparando sua cama, e a madrugada o surpreende antes que possa dormir. Como um importante mestre do século XII, Dragpa Gyaltsen, dizia: “Os seres humanos gastam toda a sua vida se preparando, se preparando, se preparando… para afinal chegarem a uma outra vida despreparados.”

 

Levar a vida a sério não quer dizer passar a vida inteira meditando, como se vivêssemos nas montanhas do Himalaia ou nos velhos dias do Tibet. No mundo moderno, temos que trabalhar e ganhar nosso pão, mas não nos devemos enredar em uma existência das-oito-às-seis onde vivemos sem noção do significado mais profundo da vida. Nossa tarefa é chegar a um equilíbrio, encontrar um caminho do meio, aprender a não nos estendermos além do possível em atividades e preocupações irrelevantes, e simplificar mais e mais nossas vidas. A chave para encontrar um equilíbrio feliz na vida moderna é a simplicidade.

 

Naquele dia, em seu mosteiro no Nepal, o mais velho dos discípulos do meu mestre, o grande Dilgo Khyentse Rinpoche, chegara ao fim de um ensinamento. Ele era um dos mais notáveis mestres do nosso tempo, professor do próprio Dalai Lama, e de muitos outros mestres que viam-no como um tesouro inesgotável de sabedoria e compaixão. Todos nós olhávamos para essa alta e delicada montanha humana, um erudito, poeta e místico que passou vinte e dois anos de sua vida em retiro. Fez uma pausa e olhou longe:

“Tenho agora setenta e oito anos, e vi muita coisa durante minha vida. Tantos jovens morreram, tantas pessoas de minha própria idade morreram, tantos homens idosos morreram. Tanta gente que esteve no alto e depois caiu. Tantas pessoas que, de baixo, se elevaram. Tantos países mudaram. Houve tanta confusão e tragédia, tantas guerras e epidemias, tanta destruição terrível ao redor do mundo. E apesar disso, todas essas mudanças não são mais do que um sonho. Quanto você olha em profundidade, pode perceber que nada existe de permanente e constante, nada, nem mesmo o mais fino fio de cabelo do seu corpo. E isso não é teoria, mas algo que você pode de fato entender e até ver com precisão, com os seus próprios olhos.”

 

Algumas vezes, quando ensino essas coisas, depois alguém se aproxima de mim e diz: “Tudo isso parece tão óbvio! Eu sempre soube disso. Diga alguma coisa nova.” Respondo então: “Você realmente entendeu e realizou a verdade da impermanência? Você de fato a integrou em cada um dos seus pensamentos, respirações e movimentos a tal ponto que sua vida se transformou? Faça a si mesmo estas duas perguntas: lembro a cada instante que estou morrendo, e todos e tudo ao meu redor também, e desse modo trato todos os seres a todo momento de forma compassiva? Meu entendimento da morte e da impermanência tem sido tão forte e urgente para mim a ponto de que dedique cada segundo da existência à busca da iluminação? Se você pode responder ‘sim’ a ambas as perguntas, então você compreendeu de fato a impermanência.”

(Sogyal Rinpoche. O livro tibetano do viver e do morrer. Tradução de Luiz Carlos Lisboa.
Revisão técnica de Arnaldo Bassoli, Lamara Bassoli e Manoel Vidal.
São Paulo: Talento e Palas Athena, 1999. Pág. 34-49.)

CRÔNICA

Saudade da coxa de catupiry

 

Humberto Werneck

Sou do tempo dos salgadinhos reconhecíveis.

Ilustração: ATTÍLIOVocê me entende: do tempo em que, diante da bandeja, a gente não tinha dúvidas — o que ali estava era croquete, coxinha, pastelzinho, empadinha, cigarrete, canapé, barquete ou pastel português. Sem chance de equívoco. Bem diferente, admita, dos dias de hoje, em que é preciso recorrer ao garçom para decifrar enigmas culinários, alguns deles tão complexos e empetecados que você se pergunta se não seriam, em vez de comida, peças decorativas, quem sabe umas ikebanas. Sim, vivemos a era em que salgadinho demanda apresentação. Deveria vir com legenda.

Nada contra a modernização do tira-gosto. Mas me dê um tempo para me adaptar. Outro dia, num casamento, estenderam na minha direção um artefato aparentemente comestível, algo como uma coxinha esférica, acoplada a um talo branco. Era, de fato, uma minicoxinha, creio que de frango — mas e o misterioso talo branco, grosso demais para ser palito? Na roda, um comensal mais ousado se aventurou a mastigá-lo, e aí se deu conta de que, naquele casamento chique, ele tinha na boca um vulgar pedaço de cana. Coxinha com cana — onde vamos parar? E o que fazer com o bagaço? Além de legenda, certos salgadinhos modernos demandam modo de usar.

Muita coisa surgiu na vida de meus maxilares tão fatigados desde a primeira dentição. Na minha infância belo-horizontina não tinha shiitake, rúcula nem kiwi, por exemplo. Se alguém dissesse mamão papaia, daria a impressão de estar se referindo a certa modalidade sexual — tanto quanto a também inexistente quiche correria o risco de soar como interjeição: quiche Maria! Em compensação, tinha Crush, drops Dulcora, açúcar-cândi, que depois sumiram do mapa.

Como sumiu o cajuzinho. Onde foi parar o cajuzinho? Você vai me dizer que não sei onde tem uma “dona” que faz. Coisas de Belo Horizonte: em alguma parte, em geral na periferia, tem sempre uma dona que faz o docinho, o salgadinho que desapareceu das vitrines. Não duvido de que nalgum recanto da capital haja uma dona do cajuzinho. Vai ver que é a mesma do bolinho de feijão.

Este foi outro que sumiu, o bolinho de feijão. O poeta Paulo Mendes Campos contou numa crônica que certa vez trouxe do Rio uma inglesa, exclusivamente para lhe aplicar o bolinho de feijão. Mas no bar de que fora frequentador, na Guajajaras, não havia um sequer. Como o poeta insistisse, o dono pôs um moleque para correr o Centro atrás de bolinho de feijão — e o saldo da expedição foram míseras três unidades, de três procedências. O escritor não estava inteirado da revolução por que passara o universo dos salgadinhos desde que ele deixou Belo Horizonte. Eis um assunto que deveria interessar aos estudiosos.

Não é o meu caso — sou mero (e voraz) consumidor, vivendo fora de Minas faz décadas —, mas arrisco uma hipótese. Houve um momento, ali pelo fim dos anos 70, começo dos 80, em que hordas de salgadinhos modernos fizeram avassaladora entrada, expulsando os tradicionais para a periferia, reduto das donas. O quartel-general da inovação pode ter sido a Torre Eiffel, que existiu na Goitacazes com a Espírito Santo. Ou foi a também extinta Doce Docê, na subida da Afonso Pena? O fato é que a certa altura a paisagem do salgadinho passou a ser dominada pela coxa de catupiry. Lembra? Enorme, obesa! E dava trabalho a quem a abocanhava: era você cravar os dentes e o catupiry derretido pelando vazava queixo abaixo. Valia por um almoço. A versão mais requisitada era a de camarão — e camarão taludo, pois mineiro, privado de mar, vai à forra nesse quesito.

Gente, que fim levou a coxa de catupiry? Tem por aí alguma dona que faz?

Humberto Werneck, mineiro de Belo Horizonte, é jornalista e escritor, autor de O Espalhador de Passarinhos & Outras Crônicas

 

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