You are currently browsing the category archive for the ‘Moacyr Scliar’ category.

Moacyr Scliar

Escritor

Segunda-feira

16 de Agosto de 2010

às 22h00

Escritor

Enquanto o mercado editorial discute como serão os negócios com a ampliação das vendas de leitores digitais como Kindle e iPad, o Brasil vive dois grandes eventos que movimentam os diversos setores envolvidos.

No começo do mês de agosto a Flip, a Festa Literária de Paraty, e agora a 21ª Bienal Internacional do Livro, de São Paulo, reuniram editoras, livrarias, intelectuais e escritores de todo o mundo. A discussão nos dois eventos passa pelo mercado editorial, o futuro do livro impresso com o avanço do livro digital e os novos rumos da literatura.

O Roda Viva recebe o escritor Moacyr Scliar, formado em Medicina, e doutorado em Ciências, foi graças à proximidade com a vida acadêmica e a paixão pela medicina que levaram Moacyr Scliar ao seu primeiro livro. Não parou mais e hoje tem uma obra com mais de setenta livros entre contos, crônicas, romances e ensaios, que deram a ele vários prêmios e a cadeira número 31 da Academia Brasileira de Letras.

http://tvcultura.com.br/rodaviva/programa/1217

Anúncios

MOACYR SCLIAR

A mulher dos meus sonhos


Estava numa praia quando de repente apareceu uma moça desconhecida e linda a sorrir-lhe; correu para ela e acordou


Encomende seu sonho. Uma área da neurologia argumenta que um indivíduo pode dirigir seus próprios sonhos. Uma técnica é a incubação do sonho, pesquisada pela primeira vez nos anos 1990 por Deirdre Barrett, da Harvard Medical School. Segundo a psicóloga, o paciente deve escrever seu problema em uma frase curta e colocar a anotação perto da cama.
EQUILÍBRIO, 10.AGO.2010

AINDA NÃO ENCONTREI a mulher dos meus sonhos, costumava dizer aos amigos. Não sem amargura: aos 40 anos continuava solteiro, sem nem sequer uma namorada que com ele compartilhasse o leito. Com pena dele, um amigo falou-lhe da técnica desenvolvida por uma psicóloga americana, coisa muito simples. Tão simples que ele resolveu tentar; afinal, nada tinha a perder.
Naquela mesma noite, e seguindo as instruções da psicóloga, escreveu numa folha de papel, em letra caprichada, a frase mágica: “Quero encontrar a mulher de meus sonhos”. Feito o que, foi dormir.
Para sua decepção, porém, teve apenas os pesadelos habituais, acidente de carro, briga de rua, essas coisas. Acordou furioso, amaldiçoando a própria ingenuidade. Mas, à noite, resolveu tentar de novo.
Tomou um bom copo de vinho, colocou a folha de papel com a anotação na mesa de cabeceira, visualizou a questão mas não a mulher; essa continuava para ele um mistério e acabou adormecendo.
Funcionou. No sonho, estava numa praia no litoral paulista, sozinho, quando de repente aparecia, vinda de lugar misterioso, uma moça para ele desconhecida, linda, a olhá-lo sorridente. Correu para ela e, no momento que iam se abraçar, acordou. Feliz, contudo: agora tinha a resposta para seu problema.
No fim de semana, pegou o carro e foi para o litoral. O tempo estava chuvoso. Não havia quase ninguém na praia, mas mesmo assim ele ficou ali. E de repente ela apareceu: a moça do sonho. Correu até ela, apresentou-se, contou o que tinha acontecido e garantiu, emocionado: “Tenho certeza de que este encontro é obra do Destino”.
Começaram a sair juntos e, seis meses depois, estavam casados. Foram morar no espaçoso apartamento dele. E aí tiveram a primeira briga: na cama, que era de casal (ele sempre nutrira a esperança de ver ali a mulher de seus sonhos), ela escolheu o lado que ficava junto à mesinha de cabeceira. Ele não gostou.
Aos 40 anos, tinha seus hábitos, e não pretendia mudá-los facilmente. Mas, considerando que encontrara a mulher de seus sonhos, optou por não fazer daquilo um cavalo de batalha.
O problema foi superado, mas outros surgiram. Ambos eram voluntariosos, ambos tinham suas manias. Brigavam constantemente e ele começou a se perguntar se a técnica da psicóloga tinha mesmo funcionado, se era aquela a mulher de seus sonhos.
Uma noite discutiram mais que o habitual e ele, irritado, disse que iria dormir no sofá da sala. Foi, mas de madrugada, arrependido (e com dor na coluna), resolveu voltar.
Silenciosamente entrou no quarto, olhou para a mulher: era linda. E então avistou, sobre a mesa de cabeceira, um papel cuidadosamente dobrado. Não precisava abri-lo para saber o que ali estava escrito: “Quero encontrar o homem dos meus sonhos”.
Com um suspiro, deitou-se. E, tendo tomado um sonífero, adormeceu. Um sono bruto, pesado. Um sono sem sonhos.

às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas no jornal.
moacyr.scliar@uol.com.br

MOACYR SCLIAR

Tragédia grega (versão atualizada)


Todos estavam ansiosos por resolver o problema da economia. E todos tinham de admitir a sua impotência


O primeiro-ministro grego, Giorgos Papandreou, pediu à UE (União Europeia) e aos países que fazem parte da zona do euro que contribuam para “apagar o fogo” da crise financeira no país, para que não se “propague por toda a economia europeia e mundial”.
O líder reconheceu que o país assume sua responsabilidade e disse que seu governo fará tudo para solucionar o grave endividamento, mas advertiu que a intervenção internacional é imprescindível. Folha Online

A tragédia grega impressiona. Com 2.500 anos de história e fonte inspiradora da cultura ocidental, a Grécia sofre as consequências de uma imprevisão quase inacreditável. Antonio Delfim Neto, 28 de abril de 2010

PROVAVELMENTE foi a palavra “tragédia” que desencadeou tudo. Como se sabe, a tragédia nasceu na Grécia; trata-se de uma forma teatral que frequentemente envolve um conflito entre personagens e algum poder maior, a lei, os deuses, o destino. A menção à tragédia acabou mobilizando as figuras mitológicas que há quase três milênios fazem parte da imaginação do Ocidente. Uma espécie de espontânea reunião, muito semelhante àquelas promovidas por autoridades monetárias, foi organizada no lendário Olimpo.
Ali estava uma verdadeira multidão de vultos famosos e de criaturas imaginárias. Todos queriam falar; todos estavam ansiosos por resolver o problema da economia grega.
E todos tinham de admitir a sua impotência diante das implacáveis forças do mercado. Só sei que nada sei, bradava Sócrates, repetindo o dito que o consagrara. Já Aristóteles preconizava uma atitude equilibrada diante do problema.
As pessoas, sustentava, dividem-se entre aquelas que poupam como se vivessem para sempre e aquelas que gastam como se fossem morrer amanhã; nenhuma dessas alternativas seria a solução, já que “a felicidade não se encontra nos bens exteriores”, sobretudo quando esses bens exteriores são quantificados em euro.
Platão pensava de modo semelhante, defendendo uma aproximação bem platônica ao problema. Sim, proclamava, podemos amar a economia, mas este amor, como qualquer outro, deve ser algo essencialmente puro, desprovido de paixões, como aquelas que fazem as pessoas apostar na Bolsa: o amor não se fundamenta num interesse, nem mesmo o interesse sexual, mas na virtude.
Em termos da economia, contudo, Platão era obrigado a reconhecer: não sabia que virtude seria essa. Eliminação do deficit? Talvez, mas tratava-se de tarefa hercúlea. Hércules foi, portanto, chamado, por expressa determinação de Zeus.
Veio, mas de má vontade: já tinha ouvido rumores sobre a péssima situação da economia e não queria se envolver no problema. Foi o que afirmou: eu posso matar o leão da Nemeia, mas não me peçam para enfrentar o implacável leão do fisco.
Eu posso liquidar a hidra de Lerna, mas sinto-me impotente diante do dragão da inflação. Eu posso capturar o javali de Erimanto, mas não me peçam para aprisionar o deficit externo. Eu limpo as cavalariças do rei Áugias, com toda sua sujeira acumulada, mas não tenho como enfrentar as pouco limpas negociatas financeiras.
Desesperados, deuses, filósofos e heróis foram consultar o oráculo de Delfos. Mas o lugar estava deserto. Os encarregados tinham ido consultar o FMI.

MOACYR SCLIAR escreve nesta coluna, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas no jornal.

moacyr.scliar@uol.com.br

MOACYR SCLIAR

Quem é você, meu amor?


Quando acordou naquela manhã, assustou-se ao ver que não estava sozinho na larga cama de casal


Henry Kerr, de 97 anos, se casou com a namorada Valerie Berkowitz, de 87 anos, após cortejá-la durante quatro anos. Os dois se conheceram em um asilo de Londres. Kerr diz que era importante casar para acabar com as fofocas: “As pessoas não podem dizer mais: “Eles estão só dormindo juntos”.” FOLHA.COM

QUANDO ELE ACORDOU, naquela manhã, teve um sobressalto. Em primeiro lugar não estava no quarto que habitualmente ocupava na casa geriátrica. Não, era um outro aposento, menor, porém mais luxuoso; havia ali um televisor, e um frigobar: um quarto de hotel, portanto.
Como viera parar ali? Um problema intrigante, mas não incomum: aos 97 anos e tendo frequentes lapsos de memória, já se conformara com situações semelhantes àquela.
Susto de fato foi ver que não estava sozinho na larga cama de casal; a seu lado, adormecida, havia uma mulher. Idosa; não tanto quanto ele, mas idosa, de qualquer maneira. Uma mulher ainda bonita que lhe parecia vagamente conhecida.
O que fazer? A primeira coisa que lhe ocorreu foi vestir-se e sair de mansinho para, pelo menos, descobrir que hotel era aquele, e como viera ter ali, acompanhado; talvez o homem da portaria pudesse lhe informar a respeito.
Chegou a se levantar, contendo o gemido habitual, mas aí a mulher acordou. Olhou-o, sorriu, perguntou se tinha dormido bem. Então ela me conhece, pensou, angustiado.
Resolveu usar de franqueza: por causa da idade, disse, já não lembrava bem as coisas; poderia ela explicar como estavam ali, os dois, juntos, naquele quarto, naquela cama? Ela riu, disse que já estava acostumada com os lapsos de memória dele e explicou: – É muito simples, querido. Nós estamos aqui porque ontem casamos. Esta é a nossa lua de mel.
Casados? Então estavam casados? De novo, aquilo era uma revelação espantosa, mas não desagradável: ao contrário, se havia alguma mulher com quem ele gostaria de ter casado, depois de todos os anos de viuvez, seria aquela que ali estava, deitada, a olhá-lo.
Casamos, continuou ela, depois de um namoro muito rápido. Você me fez a proposta, eu até achei que era brincadeira, você disse que estava falando sério, que aquela era sua última chance de ser feliz.
Então eu disse que sim, e você preparou tudo, organizou a festa, pequena mas muito bonita, e depois da festa viemos para cá, para este hotel que você havia reservado. E aí tomamos champanhe. Você estava muito alegre, não lembra?
Não, ele não se lembrava de nada. Mas, de fato, gostava de champanhe; talvez tivesse exagerado um pouco na dose e isso poderia ter contribuído para a amnésia que agora o acometia. De qualquer modo, o que estava ouvindo eram boas notícias, e ele se sentia muito contente de estar casado.
Mas havia ainda uma pergunta que tinha de fazer, uma pergunta importantíssima. Hesitou um momento, criou coragem, indagou: – E nós fizemos… aquilo?
Ela deu uma gargalhada: claro, querido, fizemos aquilo e devo lhe dizer que, fazendo aquilo, você foi absolutamente notável; você disse que, depois de tantos anos, estava sem prática, mas você se saiu muito bem, nota dez.
Agora ele não sabia mais o que pensar. Era verdade o que ela estava dizendo? Ou tratava-se apenas de uma mentira piedosa?
Sorriu. Não tinha importância.
Não tinha a menor importância.
Verdade ou mentira, o fato era que ele havia, finalmente, encontrado a mulher de sua vida.


MOACYR SCLIAR escreve nesta coluna, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas no jornal.

moacyr.scliar@uol.com.br

MOACYR SCLIAR

O dinheiro como maldição


Viver sem dinheiro lhe dava tal satisfação que quis escrever um livro; aí começaram seus problemas


Um economista britânico que passou os últimos 18 meses vivendo sem dinheiro está lançando um livro contando a sua experiência (“The Moneyless Man”, O homem sem dinheiro). Mark Boyle, de 31 anos, mudou-se para um trailer e passou a trabalhar três dias por semana em uma fazenda local em troca de um lugar para estacionar o trailer e um pedaço de terra para plantio de subsistência. “Foi o ano mais feliz da minha vida”, disse Boyle, 12 meses depois de começar a experiência, “e não vejo nenhum motivo para voltar a um mundo orientado pelo dinheiro”.
FOLHA.COM

A EXPERIÊNCIA de viver sem dinheiro, além de lhe dar enorme satisfação, tornou-o famoso: uma figura conhecida, invejada. Daí a ideia de escrever um livro. Uma ideia generosa, diga-se de passagem. O que ele pretendia era apenas ensinar às pessoas que se pode, sim, ter uma vida muito boa sem o chamado vil metal.
Não teve a menor dificuldade em encontrar um editor. Em poucas semanas, a obra estava nas vitrines de livrarias fazendo um enorme sucesso. E aí começaram seus problemas.
Meses depois, o editor foi procurá-lo na fazenda em que morava. Estava radiante, o homem. Três edições já se haviam esgotado, e a repercussão com a mídia e com o público era fantástica. Agora queria fazer, como era sua obrigação, o pagamento dos direitos autorais. Para isso tirou do bolso um envelope recheado de cédulas.
O jovem autor olhou para aquilo surpreso e disse que não poderia aceitar o dinheiro. Afinal, ia contra sua filosofia de vida, contra a tese mesmo de seu livro.
De início, o editor pensou que ele estava brincando. Depois, quando viu que o rapaz falava sério, irritou-se: era dono de uma editora tradicional, que sempre pagara seus autores, e não abriria exceção.
O rapaz, por sua vez, também zangou-se: dinheiro ele não queria de jeito algum. O homem poderia fazer com aquela soma o que quisesse, ele não a aceitaria. O editor terminou indo embora, furioso.
Dias depois ele recebeu um aviso do banco: a quantia tinha sido depositada em sua conta. De imediato mandou um e-mail ao gerente, dizendo que estornasse o depósito: era um pagamento indevido.
Passou-se uma semana quando o carteiro lhe entregou um grosso envelope: vinha, claro, da editora, e continha o pagamento, em dinheiro, dos direitos autorais.
E ele foi ao correio, para mandar de volta a grana ao remetente. Lá chegando, deu-se conta de que precisava pagar a postagem. O que, obviamente, não seria problema: bastaria usar uma minúscula fração daquela enorme quantia.
O problema é que isso seria contrariar sua filosofia de vida, seu propósito de mostrar ao mundo que é possível viver sem o vil metal.
Sem saber o que fazer, ele voltou para o trailer e guardou o dinheiro sob o colchão. Espera que alguma solução lhe ocorra, mas enquanto isso tem dormido mal, atormentado por pesadelos. Vê-se rico, muito rico, gastando fortunas com carros, mulheres, roupas caras, banquetes.
Ele sabe qual a causa desses sonhos: é o eflúvio emitido pelo dinheiro sob o colchão. Poderia queimá-lo, claro, e já pensou nisso, mas sabe que, quando acender o fósforo próximo ao monte de cédulas, sua mão tremerá, tremerá tanto que a chama se apagará. E aí ele estará definitivamente perdido.

MOACYR SCLIAR escreve nesta coluna, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas no jornal.

moacyr.scliar@uol.com.br

MOACYR SCLIAR

Aquele estranho hábito, dormir


O que o bisavô queria dizer com isso? O velho tenta explicar: a gente via coisas, pessoas que não existiam


Paulistanos dormem cada vez menos, segundo pesquisa. “São Paulo é uma cidade “24 horas”, cheia de atividades sociais e profissionais. Isso pode colaborar para a redução das horas de sono”, diz o biólogo Rogério Santos-Silva, da Universidade Federal de São Paulo, um dos autores do estudo, que será publicado na “Sleep Medicine”. A empresária Deborah Sollito Ventura, 47, trocou o dia pela noite. “Comecei a levar trabalho para casa porque gosto da madrugada. Faz anos que não durmo as oito horas recomendadas”, diz. “Hoje, as pessoas vão ao supermercado de madrugada. Há muitas opções de baladas, bares. Ninguém sacrifica o lazer, é mais fácil sacrificar o sono”, diz o pneumologista Maurício Bagnato, responsável pelo setor de medicina do sono do Hospital Sírio-Libanês. Folha.com

“”DORMIR, TALVEZ sonhar”. Shakespeare, Hamlet. São Paulo, em uma noite do ano de 2080.
Um garoto aproxima-se de seu bisavô, que já passou dos cem anos.
Tem uma pergunta para fazer, uma pergunta curiosa e, ao mesmo tempo, inquieta.
– É verdade -pergunta- que quando você era criança as pessoas dormiam?
O bisavô suspira.
– Sim -responde- é verdade.
Quando eu era menino, as pessoas dormiam; dormiam poucas horas, mas dormiam. A resposta não satisfaz o garoto, que continua intrigado. Pedindo desculpas pela insistência, volta à carga:
– Mas o que era isso, essa coisa de dormir?
O ancião suspira de novo. Obviamente não sabe, não consegue, explicar algo do qual pouco se lembra, mas bisavôs têm a obrigação de educar os bisnetos, e ele ao menos tentará.
– Dormir era o seguinte: quando chegava a noite, a gente tirava a roupa, vestia uma coisa chamada pijama, e íamos para a cama. Olhávamos um pouco de televisão, que era a forma de mostrar imagens naquela época, depois desligávamos o aparelho, fechávamos os olhos e adormecíamos.
O garoto está assombrado:
– Mas o que vocês faziam quando estavam dormindo?
O ancião sorri:
– O que fazíamos? Nada. Quer dizer: fazíamos alguma coisa, sim.
A gente sonhava.
Agora o garoto não entende mais nada. Sonhar? O que o bisavô queria dizer com isso? O que era sonhar? O velho tenta explicar: a gente via coisas, pessoas que não existiam.
– E era bom?
– Era. Quase sempre era. Às vezes os sonhos se transformavam em pesadelos, mas, em geral, a gente gostava de sonhar.
O garoto fica um instante em silêncio. E aí faz a inevitável pergunta, a pergunta que, para ele, é muito mais importante do que imagina:
– E se você pudesse sonhar hoje, com o que sonharia?
Eu sonharia com a época em que se podia dormir e sonhar é a resposta que de imediato ocorre ao bisavô.
Mas, claro, não é o que ele diz: a última coisa que quer é parecer saudosista.
– Eu sonharia com um bisneto que não me fizesse tantas perguntas.
O garoto ri, despede-se e sai. A noite é uma criança e ele ainda tem muito o que fazer.


MOACYR SCLIAR escreve esta coluna na Folha de São Paulo, às segundas-feiras; um texto de ficção baseado em notícias publicadas no jornal.

moacyr.scliar@uol.com.br

MOACYR SCLIAR

A arte de jogar fora


Havia muito pensava em mudar de vida; adotou, então, a ideia do livro: livrar-se de 50 coisas desnecessárias


O livro “Jogue Fora 50 Coisas” ensina a melhorar o senso de organização. A autora Gail Blanke sustenta que o acúmulo de coisas desnecessárias atrapalha nossas vidas e propõe o exercício de jogar fora 50 delas em duas semanas. Folha Online

A LEITURA do livro foi para ela uma revelação. Havia muito tempo pensava em mudar de vida, em dar um novo rumo à sua existência, terminando com as frustrações, realizando seus sonhos de juventude. Achava, porém, que isso só poderia ser feito de maneira drástica, terminando com o casamento, saindo de casa, indo morar em algum lugar distante. Mas o livro sugeria que não precisava chegar a tais extremos. Poderia começar de maneira modesta e prática: jogando fora 50 coisas que considerasse desnecessárias. Um passo para começar a distinguir o que era realmente importante do que era apenas secundário.
Livrar-se de 50 coisas desnecessárias não seria, porém, coisa fácil. Por causa do marido. Homem autoritário, obsessivo, não queria que nada fosse jogado fora. Tudo teria de ser guardado: jornais antiquíssimos, eletrodomésticos que já não funcionavam, roupas velhas e rasgadas, e até biscoitos mofados.
Felizmente, para ele, e infelizmente para ela, a casa, herdada da família dele, era enorme: dois pisos, sótão, porão. Resultado: velharias e quinquilharias por toda a parte. O pior é que ele conhecia cada coisa, cada objeto; sabia procurá-los nos lugares onde estavam. E reclamava de qualquer mudança, por insignificante que fosse. Já despedira incontáveis empregadas por causa disso.
Mas ela estava determinada a ir em frente com seu projeto. E, quando tivesse reunido os 50 objetos de que falava o livro, não os jogaria fora apenas: trataria de queimá-los numa fogueira monumental que, além de garantir a irreversibilidade da mudança, simbolizaria o ingresso na nova fase de sua vida.
Para facilitar a tarefa, resolveu trabalhar com grupos de dez objetos. Primeiro grupo: roupas usadas do marido. Fácil, muito fácil. Meias furadas, camisas rasgadas e manchadas, paletós fora de moda: num instante a coleta terminou. Depois veio o grupo da papelada, que incluía jornais e revistas antigos.
Também foi fácil. Revistas de dez anos atrás estavam guardadas numa prateleira! Coisa completamente maluca! Foi tudo encaminhado para uma pilha no quintal.
O terceiro grupo era de livros, e aí já foi mais difícil; em muitos casos ela ficou em dúvida. Mas os volumes comidos de traça obviamente podiam ser dispensados, assim como os livros em duplicata. A pilha cresceu bastante. O quarto grupo era de equipamentos fora de uso. Também difícil.
Poderia jogar fora uma máquina de escrever manual? Uma impressora aparentemente fora de combate? De qualquer jeito deu para juntar dez itens, que foram direto para a pilha do quintal.
E aí veio o quinto grupo, o mais difícil: objetos pessoais e decorativos. Certas fotos, certos bibelôs, calendários antigos… De qualquer modo foi indo e conseguiu chegar à cifra de nove coisas descartáveis.
Faltava um décimo objeto, e ela estava pensando a respeito, quando o marido chegou. Ao ver o que a mulher estava fazendo, teve um ataque de fúria: era uma falta de respeito aquilo e ela tinha de botar tudo no lugar imediatamente.
A ordem foi, claro, cumprida. Mas ela não pôde deixar de pensar que, ao menos, tinha descoberto o quinquagésimo item a ser jogado fora.

MOACYR SCLIAR escreve uma coluna no Caderno Cotidiano da Folha de São Paulo, às segundas-feiras. O texto é uma ficção baseado em notícias publicadas na Folha.

moacyr.scliar@uol.com.br

Calendário

Outubro 2017
S T Q Q S S D
« Jan    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031  

TWITTER