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Éramos inseparáveis na escola de jornalismo. Ele, um obcecado por fazer tudo o melhor possível; eu; com a tranqüilidade preguiçosa de alunos sem grande ambição. Paulo e Fabio. Em comum algumas coisas, como a paixão pelo Corinthians, os romances de Graham Greene e os solos de guitarra suavemente minimalistas de George Harrison. Nescau, Calipso, Coca. O amor desvairado por jogar futebol: éramos capazes de sair direto de uma sexta de madrugada, bêbados, rumo a um jogo de futebol no sábado pela manhã. Montaigne e Sêneca.Gatsby, o romance de Fitzgerald. Conhecíamos e discutíamos detalhes de Gatsby. Anotávamos trechos de livros que nos pareciam especiais, e isso era outro ponto que tínhamos em comum. O Gatsby de cada um de nós estava quase todo rabiscado. O tempo se incumbiria de dar a nós dois o destino que cada um começou a construir lá para trás.

Paulo é o que comumente se define um jornalista de sucesso. Primeiro repórter, depois editor, depois diretor de revista. Minha carreira foi menos variada. Primeiro um escritor barato. Sempre um escritor barato.

A vida nos afastou. (A vida sempre afasta os amigos da juventude. A vida é cruel como um cossaco russo nesse trabalho de afastamento de amigos.) Ficamos anos sem nos ver. Deixei pelo telefone, duas ou três vezes, recado com sua secretária. Não recebi retorno. Entendi: pessoas em alta posição nunca têm tempo para nada, ao contrário de vagabundos como eu, para os quais os minutos fluem vagarosos como a água de um riacho. Até que um dia nos encontramos por acaso numa fila de cinema. Tínhamos ambos ido ver A Mulher do Lado, de Truffaut. (Não pus, por engano, esse filme perturbador na lista de nossas paixões comuns. Agora corrijo o erro. Como falávamos desse filme em nossos dias de jovens, como elucubrávamos, como discutíamos cada cena.)

Ver meu amigo bem-sucedido na fila de A Mulher do Lado me levou imediatamente a uma constatação. Sim, ele vestia um blazer que me pareceu Armani, e imagino que fosse Rolex o relógio que tinha no pulso esquerdo. Mas, na alma, não mudara tanto assim, ou assim me pareceu ao vê-lo na fila. Estávamos ambos sozinhos. A Mulher do Lado era e é um filme sagrado para nós. E filmes sagrados, dizíamos ele e eu em nossos dias de jovens, exigem que você os veja sozinho. Para se concentrar inteiramente. No máximo, a companhia de um saco de pipocas. Nada mais.

Combinamos tomar um lanche na saída. Nada muito demorado. No dia seguinte, meu amigo tinha uma reunião bem cedo. Fomos ao Hamburguinho, outra de nossas obsessões comuns que me esqueci de listar. Miramos em silêncio respeitoso o quadro Boulevard of Broken Dreams, sobre o qual tanto falávamos lá pra trás. Na melancólica lanchonete retratada no quadro parecíamos reencontrar um pouco da juventude para sempre perdida. “Sempre invejei você”, Paulo me disse.

Pensei que fosse piada. “Invejou o quê?” Minha desimportância? Desde quando escritores fracassados despertam inveja? Eu imaginava uma estante repleta com livros escritos por mim. Um novo Dostoievski. Um novo Fitzgerald. E acabei como um colunista de assuntos sentimentais. Com dinheiro contado para comer esse sanduíche. “Ele suspirou. “Você não foi apanhado pela gaiola em que me meti. Você é dono de você. Há muito tempo eu deixei de ser dono de mim. É o preço que ambiciosos como eu pagam.”

Eu disse: “E quem não paga? Só não paga quem não pode”. Ele deu uma risada irônica. E olhou para algum lugar que era bem longe dali. “Meu pai. Meu pai não pagou.” O pai morto era uma dor constante para meu amigo. “Foi o maior homem que eu conheci. O maior jornalista. Fui bem mais longe na carreira que ele. Muitas vezes me perguntei por quê. Outro dia finalmente entendi. Fui adiante não porque fosse melhor que ele. Mas porque sou pior. Eu paguei o preço que meu pai recusou pagar.”

Era hora de ir embora. Antes de nos despedirmos, para talvez nunca mais nos encontrarmos, Paulo me disse: “Leio você. Sabe? Acho que me realizei em você. Um escritor barato. Era isso que eu queria ser. Barato e livre. Mais não tive a coragem de recusar o que as pessoas chamam de sucesso”. Então meu amigo foi em seu carro importado rumo a sua cobertura, a seu sucesso dolorido e a seu sentimento de orfandade e desamparo. Antes de partir, Paulo abriu o vidro de seu carro e gritou para mim a frase de que mais gostávamos em Gatsby. Gatsby estava derrotado, caminhando rumo ao nada, abandonado por todos os que o bajularam enquanto estava por cima, quando o narrador gritou para ele: “Ei Gatsby, você é melhor que todos eles”. Ainda hoje me comove lembrar essas palavras pungentes de Nick, o narrador. Ouvi a mesma frase de Paulo. Com uma pequena modificação. “Ei, Fabio, você é melhor que todos nós.” Nós quem, pensei depois. Os que se venderam como ele diz ter se vendido? Depois apanhei um táxi no ponto, pedi ao motorista que me deixasse na Kilts e no trajeto pensei que o sucesso é mesmo uma coisa muito engraçada.

boytie

Será que algum dia os homens realmente crescem? Você é um menino. Treze, catorze anos. Inseguro, tímido. Começa a se interessar pelas mulheres. E não vai demorar para perceber que mulheres e problemas aparecem juntos em sua vida. Você não sabe lidar com o mundo novo no qual está entrando. Sua voz está mudando. Os pêlos estão aparecendo. O futebol já não é seu único interesse. Aparecem os primeiros bailes. Você não sabe direito que roupas escolher. As sugestões de sua mãe lhe parecem horríveis. Mãe nunca acerta na roupa do filho, uma lei tão velha e tão eterna quanto as estrelas no céu e as ondas no mar. Ser criança era muito mais fácil. E então você olha para os garotos um pouco mais velhos. Eles estão nas classes um ou dois ou três anos mais adiantadas que a sua. Seu olhar mistura admiração e inveja. Eles parecem tão seguros. Tão confiantes. Alguns ameaçam um bigode, uma barba. A voz já está definida. E as meninas da sua classe estão apaixonadas por eles, não por você. Eles são mais altos que você. Eles são melhores que você. Já devem até ter dormido com alguma menina. E você jamais viu uma mulher nua que não fosse sua mãe ou não estivesse numa revista. Eles se libertaram daqueles programas sem graça com a família. Mas seu dia chegará. Os dias hão de passar. Você vai crescer e seus problemas desaparecerão. Você será um homem firme, forte, como os caras mais velhos. E eis que você é como eles. Os caras maiores que você via de longe. Você imaginava que sua vida seria outra. Mas não foi bem assim. Você cresceu, sua voz engrossou. Você até viaja sozinho, sem os pais, com os amigos. A virgindade ficou para trás, mas você já percebeu que o sexo não é o fenômeno extraterrestre que você pensava ser antes de experimentá-lo. É bom, às vezes muito bom, algumas vezes ótimo. Mas não é coisa do outro mundo. A terra não treme sempre ao fazer sexo, ao contrário do que você sonhava. Você já é um homem. Ou quase um homem. E pensava que a segurança máscula viesse com o tempo, com a mesma naturalidade com que a terra se molha quando vem a chuva. Mas não. Seu dia chegará. E então você olha para os homens feitos. Formados, empregados. Alguns casados. Eles, sim, são os típicos homens. Basta olhar para o andar seguro, o olhar firme. Eles não têm dúvidas, não têm medos como você. Os mais ricos têm carros chiques. Pagam com cartão de crédito, e não com o dinheiro pedido a seu pai, como você. Uns vestem gravatas que devem valer duas mesadas suas. Alguns têm um cartão em que estão escritos o nome e o cargo. Nada parece ser capaz de abalá-los. Eles não sentem vontade, nas noites mais escuras, de pedir um refúgio na cama dos pais. Você sente, às vezes. Seja honesto: você fez isso outro dia. Seu dia chegará. E chegou. Você se formou. Arrumou um emprego promissor. Tem um cartão profissional. O carro podia ser melhor, mas é bom. Tem ar-condicionado e som. O namoro é firme. Deve terminar em casamento. Seu armário tem até um blazer Armani que você comprou num momento de entusiasmo e desvario. Mil reais. Você parece o cara mais seguro do mundo, como todos os seus colegas e amigos. Mas só parece. Lá dentro continua uma criança, como todos os seus colegas e amigos. Todos disfarçam bem. Todos aprenderam que ser homem é ser forte. Você queria gritar socorro, mas não convém demonstrar fraqueza. Você queria se abrigar no colo de seu pai, mas ele já não está lá. E então você ri, porque a vida é mesmo engraçada, repleta de crianças fingindo-se de homens até o último dos dias.

Thunder e Pedro estavam disputando corridas de Mario Kart no Wii. Eram velhos amigos, e estavam no apartamento de Pedro.. Entre todos os circuitos do Mario Kart aquele de que mais gostavam era a Rainbow Road, pela beleza extraordinária da paisagem e pela habilidade necessária para percorrer o caminho. A amizade entre os dois lembrava a definição clássica e sublime de Montaigne para os amigos: uma costura entre almas tão forte que não se vê a linha. Montaigne escreveu suas palavras eternas sobre a amizade nos seus Ensaios, e a razão era homenagear um amigo morto, Lá Boètie, autor de uma pequena grande obra chamada Tratato sobre a Servidão Voluntária. Tão forte nas adversidades, com tamanho preparo para enfrentar “o perpétuo vai-e-vém das elevações e quedas”, para usar uma expressão de Sêneca, Montaigne admitiu com pungência que a morte de seu amigo o atirou numa noite longa, fria e escura.
Thunder e Pedro eram devotos de Montaigne e seus Ensaios, bem como de A Mulher do Lado de Truffaut, Os Maias de Eça, O Beijo de Klimt, In My Life dos Beatles e o cheeseburger do Hamburguinho. Também eram devotos de Rivelino e do Corinthians. Achavam que Rivelino tinha sido melhor que Pelé, e eram capazes de passar horas na defesa apaixonada dessa tese contra todas as estatísticas.
Pedro em breve partiria para uma demorada viagem.
“Pedro”, disse Thunder em sua voz estentórea de Fred Flintstone depois de bater mais uma vez o amigo na Rainbow Road.
“Hmmm.”
“Estou feliz mas estou triste”, disse Thunder.
Lol. Pedro riu. Tirou um caderninho de anotações do bolso e escreveu a frase de Thunder.
“Um dia vou usar essa frase em alguma coisa que escrever”, disse Pedro. “Para que não pareça imitação, vou inverter as coisas. Vou dizer: estou triste, mas estou feliz.”
Iam correr agora na Moonview Highway, outra prova exigente do Mario Kart. E outra paisagem deslumbrante: uma corrida noturna, cheia de luzes na escuridão desafiadora, e uma lua que parecia ao mesmo tempo zombar dos pilotos desastrados e saudar os hábeis.
“Thunder.”
“Hmmm.”
“Sua frase. Me lembrou aquele ensaio do Montaigne. Como uma mesma coisa nos faz rir e chorar. É o capítulo 38, se não me engano.”
“38. Acertou. É um dos meus prediletos.”
Terminada a prova na Moonview, com mais uma vitória de Thunder, Pedro se levantou e foi apanhar seu exemplar dos Ensaios. Queria rever uma passagem específica do capítulo 38. Mas antes fez uma reflexão sobre Montaigne e as mulheres.
“Thunder.”
“Hmmm.”
“Você já deu Montaigne para alguma namorada ler?”
“Nem me fale”, disse Thunder. “Foi péssimo. Ela abominou as coisas que o Montaigne escreveu sobre as mulheres. Um machista idiota e arrogante. Foi como ela chamou o Montaigne.”
“Eu ia dizer exatamente isso. Nunca mostre Montaigne para sua mulher.”
Pedro abriu na página cujo trecho queria ler.
“Aqui, Thunder”, apontou com os dedos para o parágrafo que buscara e encontrara. Pediu a Thunder que lesse em voz alta em seu vozeirão.
“Nenhum de nós pode vangloriar-se de não ter, não obstante o prazer que auferir de uma bela viagem, sentido faltar-lhe a coragem de deixar família e amigos”, escreveu Montaigne. “E, se não chegou a derramar lágrimas de verdade, não foi sem um aperto no coração que pôs o pé no estribo.”
“É exatamente como me sinto diante da viagem que eu vou fazer”, disse Pedro. “Pé no estribo. É uma imagem e tanto, não é?”
“Pedro”, disse Thunder. “Um amigo ausente. Isso dói. Não temos tantos amigos assim de verdade.”
Thunder estava com os olhos úmidos.
“Vou sentir sua falta”, disse Thunder em seu vozeirão momentaneamente enfraquecido.
“Thunder”, disse Pedro.
“Uma coisa eu te garanto. Vou treinar Mario Kart direto enquanto estiver fora. Não agüento mais perder para você.”
E então partiram para mais uma prova na Rainbow Road.

Texto publicado no blog Confissões de um homem sincero (fabiohernandez.wordpress.com) de Fábio Hernandez.

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