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Todo mundo tem segredos. Ou pelos menos as pessoas interessantes. Nada mais chato que alguém mapeado, retilíneo, constante, bonzinho, doce, amável. Para mim, só vale a pena quem tem um cadáver no armário, uma sombra perigosa, um poço fundo. Pessoas simplórias são como muitos dias de sol seguidos: agradáveis e infinitamente entediantes.

É a falta de obviedade desperta a curiosidade. Não é à toa que os mitos nascem da dualidade, da pouca incidência de clareza sobre sua personalidade: ninguém fica embasbacado pela simplicidade do seu Zé da quitanda (no máximo, enternecido). Somos fascinados pelo que não entendemos, amamos o desconhecido—por isso mergulha-se à noite, escala-se o Himalaia, come-se fora de casa, trai-se. É só quando ultrapassamos a barreira do familiar, do seguro, que nos tornamos verdadeiramente pessoas. Menos ingênuas, é certo, mas completas.

Ter segredos é viver intensamente, é a prova de que a realidade é muito mais do que nossos forçados sorrisos de bom dia, o escritório claustrofóbico, o saldo negativo. Ter segredos é ter coragem de arcar com o peso de ser único. Porque quem não se arrisca, não faz besteira, não vive: apenas gasta o tempo que deveria ser aproveitado apaixonadamente. Apenas caminha sobre os dias rumo à morte.

“Só existe amor real depois de a solidão se tornar boa companhia, porque só quem se sente à vontade consigo mesmo pode ter algo a oferecer a quem quer que seja.”

“Amar, pra mim, é como comer manga: o prazer é diretamente proporcional à lambança e ao tempo que se demora pra tirar os fiapos. E daí se mancha? Tudo na vida tem seu preço. E algumas coisas valem cada centavo.”

Cansei de pensar em você.

Fisicamente.

Sinto dores no peito como se tivesse corrido toda a noite atrás do caminhão de lixo na tentativa desesperada de tirar de lá algo de muito valor que, por engano, joguei fora. Mas quando cheguei perto de alcançá-lo, esqueci do que se tratava.

Cansei de me ver através dos seus olhos.

Cobradores.

Você nunca me acolheu. Mesmo nos meus momentos mais frágeis, em que lágrimas de impotência ou de genuíno arrependimento rolavam pelo meu rosto, você não me colocou em seus braços. Sua primeira e única reação era me passar sermão—como uma mãe ríspida. Tudo o que eu precisava era carinho. Implorava. Do meu jeito. O único que, até então, conhecia.

Cansei de me compadecer de mim mesmo.

Nos últimos tempos, fui uma versão novelesca do que costumava ser. E odiava. Mesmo com tantas sinceras tentativas, não aprendi a dar amor a você. Por mais que se engane que sim, você não aprendeu a me dar amor. Juntos, poderíamos ter sido muito, felizes. Mas, antes, chegamos a uma bifurcação. Em vez de enxergamos duas possibilidades (talvez promissoras) de caminho, amaldiçoamos termos perdido tempo em uma rota inútil.

Cansei de pensar que poderia ter sido diferente.

Se pudesse, teria sido. Se você quisesse, teria sido. Talvez eu não estivesse a altura do seu sonho. Talvez eu fosse pouco. Hoje sei que sou muito mais do que você jamais sonhou.

Cansei de esquadrinhar se você me substituirá facilmente. Ou se já o fez.

Não posso atrelar o meu valor aos seus ímpetos sexuais nem ao seu imenso desejo de construir uma família, almoços de domingo, aniversários em bufê (desejo que compartilho e compreendo). Não vou permitir cair nesse buraco sem fundo de me sentir invisível, preterível, por não ser mais olhado por você.

Cansei de estar só.

Mesmo já estando assim há tanto, sua ausência física  trouxe a dura certeza do abandono a que me submeti. A dura certeza de quanto preciso aprender a me doar. A dura certeza de que morro de medo da solidão.

Cansei de pensar em tudo de bom.

Nossas viagens. As pousadas, as camas, os cafés da manhã.

Nossas risadas em mesas de bares.

Seus presentes fora de hora.

Nossas noites na lareira.

Suas bochechas coradas quando tomava porre.

Nossos vinhos e seus efeitos.

Seu beijo apressado, cheio de intenções.

Nossa casa tão repleta de nós que, dia-a-dia, se desfaz. Desaparece. Inexiste. Como nós.

Cansei de amá-la.

Jamais soube, verdadeiramente, o que significava amar. Não o amor oferecido amigos, família—esse é fácil de distinguir, seja pela força do sangue ou pelo poder agregador da história em comum. Nunca consegui identificar os indícios da existência do amor quando o envolvido era aquele que entrava na minha vida e permanecia, mudando tantas coisas, acertando outras tão desarrumadas há tempos, adicionando complicações e prazeres. A incerteza estava sempre lá, questionando se aquilo era amor ou apenas uma sensação prolongada de satisfação que, fatalmente, acabaria. E, se acabasse, teria sido amor?

Em algum canto de mim morava a certeza tolamente romântica de que, quando se tornase realidade, ele curaria minha ansiedade inerente e instalaria a tranquilidade tão desejada, necessária. Mas isso não aconteceu. Nunca uma pessoa apaziguou meu tumulto. Então teria sido amor?

Os fatos– tão repletos de ausência de sentido em tantos momentos– que me deixam incrédula, rancorosa, triste, seriam apenas pequenos contratempos sem importância comparados ao brilho e a dimensão que a entrada do amor daria a minha vida. Alguns homens passaram por mim, mas a ocasional frustração e raiva causadas por palavras ferinas e atos escusos – e a inevitável decepção atrelada a eles– nunca deixou de me assolar. Se a presença de nenhum deles tornou insignificante minha angústia, teria sido amor?

Jamais desejei, com urgência e paixão uterinas, ter filhos com um homem nem sonhei com uma grande mesa repleta de netos, noras e genros. Também não me imaginei, idosa, ao lado dele a passear pela rua. E me senti uma sub-espécie de mulher, isolada do resto da humanidade portadora de belos desejos a longo prazo: se nunca vislumbrei esse futuro conjunto, teria sido amor?

Demorei para aprender, mas hoje compreendo o significado de amar. O meu significado. Amar alguém é curtir o correr dos dias ao lado dele, tirando, a cada oportunidade, o peso devastador das expectativas, porque é da leveza que nasce a harmonia. É sentir (e não saber—o que faz toda a diferença) que ele precisará da minha ajuda tanto quanto eu de um ombro para descansar; que o fim não mede a beleza de uma relação, assim como a morte não anula quem fomos; que nada, nem ninguém, arrancará de mim as sensações que me fazem ser quem sou (e que precisarei, sozinha, não destruí-las, mas lidar com elas); entender que a obrigação de me salvar é absolutamente minha.

A capacidade de esquecer é o que existe de mais precioso sobre a face da Terra, sob nossas faces. Amar é indubitavelmente mais magnânimo, mas não é tão essencial quanto o esquecimento: é ele que nos mantém vivos.

O amor torna a paisagem mais bonita, mas é o bálsamo curativo do esquecimento que nos faz ter vontade de abrir os olhos para vê-la.
A paixão empresta um sentido quase mítico aos dias, mas é esquecer a excruciante tristeza perante a morte dela que nos torna aptos a nos encantar novamente dali a pouco.
Já esqueci amores inesquecíveis e sobrevivi a paixões que, tinha convicção, me matariam se terminassem.
Às vezes, cruzo na rua com fantasmas que já foram bem vivos na minha história e não deixo de sentir uma certa melancolia por perceber que aquele rosto um dia pleno de significado se tornou tão relevante quanto um outdoor de pasta de dente.
Algumas pessoas simplesmente são apagadas da memória como filmes desimportantes. Sem maldade ou intenção, apenas esmaecem até desaparecer.
É mesmo impossível manter na memória da pele todos os que passaram por nós ou sermos mantidos por todos: gente demais, espaço de menos…
O passado deve ser mantido no lugar dele e não trazido nas costas feito mochila de viajante, lotada com os erros cometidos e alegrias jamais revividas.
Para ser feliz é necessário pouca coisa além de se livrar do excesso de carga e esquecer as coisas certas.
É útil também jamais perder de vista um detalhe, afixá-lo no espelho do banheiro, repeti-lo como um mantra: absolutamente nada é para sempre, nem mesmo os sentimentos que parecem ser (a vida seria um lago estagnado se só existisse o perene).
Nunca mais haverá amor como aquele?
Ótimo, porque o novo é tão imenso que seria um desperdício se algo se repetisse.
Todo mundo passa.
E é bom que seja assim.

Nunca sabemos ao certo quando deixamos de ser importantes.

É triste perceber que quem tanto me importa não olha por mim, apenas me vê. Não altera em nada sua lista de prioridades quando preciso de socorro, atenção. Apenas (depois, sempre depois) desculpa-se. Diz que as coisas estão complicadas. Está constantemente ocupado, atrapalhado. Sempre se sai com ótimos motivos para não ter ido, feito, acompanhado. Conhece meus gostos, minhas neuras, o porquê do riso rasgado. Sabe o número do meu telefone, onde vivo, mas mora num outro universo, do qual não tenho o endereço, nem pertenço: é péssimo notar que sou pouco para quem é muito pra mim.

E não se trata de desdém, nem de rancor. É mais sutil e menos óbvio, por isso tão doído (sei que o carinho existe, mas anda tímido). Pode até me surpreender com telefonemas, e-mails, conversas à toa, mas não está presente nos momentos críticos da minha vida. Torna-se incomunicável, desaparece. Não fica ao meu lado. Não pega o lenço para que eu possa continuar chorando, sem medo de julgamentos. Não traz da cozinha a garrafa da minha bebida preferida para comemorarmos. Não me abraça quando faltam palavras, não me afaga quando elas não bastam. Sei que aquela pessoa, tal qual a recordo, existiu, só não sei em que ponto deixou de ser real para se tornar um holograma da minha mente. Uma suspeita de surto: será que me enganei desse jeito? Talvez não tenha me enganado, apenas o tempo nos tenha tornado diferentes demais e já não andemos na mesma direção.
Talvez.

A vida acaba nos trazendo, inevitavelmente, amigos assim (que chamamos “amigos” por desconhecimento de termo mais adequado). Amores assim. Pessoas que estiveram conosco, compartilharam e construíram nossa história, mas que, sabe-se lá quando e por que, descompassaram. Alguns até continuam presentes, mas jamais estiveram tão ausentes. Outros fazem questão de dizer o quanto somos importantes, especiais, e eis um alerta que não ignoro: sempre desconfiei de quem fala “Você pode contar comigo”, “Qualquer coisa, me liga”, “Nunca vou te esquecer”. Isso se mostra calmamente, no dia-a-dia, não se legaliza numa promessa. É preciso tempo, e é só com ele que saberei se essas palavras significam algo ou são mera formalidade. Me mostre que eu posso contar com você, não me diga isso.

Talvez percamos o sentido de existir na vida de algumas pessoas, por mais importantes que tenhamos sido (ou que supomos ter sido). Nossa permanência torna-se oca de significado. Desbota. Gradualmente, sumimos. E não há nada de errado nisso. De triste, sim (todo fim é triste), mas não de errado: não dá para exigir ser amado. Errado é mantermos à nossa volta, atrelados a nós por compulsão ou necessidade de companhia, quem não tem mais nada a nos oferecer. Para quem oferecemos tão pouco.

Quantos sinais são necessários até compreendermos que já não nos importamos com alguém?

Falar logo o que se quer: essa é a receita da felicidade.

O mundo é feito por quem evita dizer não sei. E, se diz, faz logo alguma coisa pra ficar sabendo. Fernando Pessoa provavelmente não se contentava em tomar vinho do Porto no boteco e concluir que “a vida é complicada, então é melhor continuar aqui e ver a banda passar”. Galileu não devia ser um bundão que olhava o céu e se consolava: “Sei lá como é essa porcaria”. Não se faz nada nesta vida com não sei: nem estações espaciais, nem sexo. Nada.

Se os homens têm que ter resposta pra tudo? De maneira alguma. Existem perguntas para as quais não sei é o veredicto mais adequado: quem somos? Para onde vamos? Deus existe? Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Mas, se ela o olhar daquele jeito que as mulheres olham quando querem uma resposta direta e clara e perguntar: “Eu devo insistir em nós dois ou ir embora agora?”, não sei é a maior idiotice que você pode dizer. Desculpe o pragmatismo, mas é isso que sentimos. Quase nada consegue ser tão ruim quanto não fazer diferença, ainda mais quando quem está na sua frente faz. E muita.

Nessas duas inofensivas palavras há um mundo de sentimentos não compartilhados pelo questionado, e mata ignorar se eles são, mesmo minimamente, direcionados ao questionador. É um breu emocional em que não sabemos se nos jogamos no Rio Pinheiros ou nas águas de Bonito, e o outro (no caso, você) não faz a mínima questão de esclarecer.

É péssimo ficar boiando, sem saber o que esperar, pensar, fazer. Sem saber se é melhor dar no pé ou tacar fulaninho na parede e chamar de lagartixa. Sem saber se o envolvimento foi um tremendo desperdício de tempo e energia ou algo digno de pensamentos ao decorrer do dia. E sabe por que não sei é tão odioso? Por que não dá pra não saber. Ou se quer ou não. Se deseja ou não. Assim como você não fica em dúvida quando alguém te pergunta se você gosta de chocolate, cachorro ou empinar pipa. É sim ou não. Maniqueísmo puro.

Não sei é argumento de gente (mulheres também usam esse expediente) imatura demais pra arcar com as conseqüências do sim e muito medrosa pra dizer não. Dizer não sei àquela criatura é deixá-la à mercê da sua volubilidade, mantendo-a sob o jugo do “mistério”, que, na maior parte das vezes, é somente uma atroz incapacidade de lidar com as pessoas.

Se não podemos ficar confusos com relação a sentimentos? Sim, é claro. Mas mesmo no meio da confusão vislumbramos pra qual lado nos inclinamos, notamos se tendemos a resolver a questão ou se preferiríamos dar um tapa e enviá-la a Júpiter. Enfim, sabemos. Porém é necessária uma boa dose de coragem e maturidade no ato de decisão porque cada opção é, em si, uma negativa perante o mar de outros possíveis caminhos.

Decidir é ultrapassar a infantil fantasia de que podemos ter tudo, sempre, ao mesmo tempo; é a humildade de reconhecer que vovó não estava gagá quando dizia que “quem tudo quer nada tem”.

Já passei da idade dos joguinhos adolescentes “estou a fim de você mas não conto porque é sua obrigação sacar”. Se quero alguém, informo. É tão mais fácil e saudável. Claro que já ouvi não. Tudo bem, ninguém é obrigado a cair de amores por mim. Mas, na boa, prefiro um não proferido nas fuças que um não sei pairando no ar. Um chega-pra-lá pelo menos é uma definição: então posso pegar meu barquinho, sem culpa nem “serás”, e sair remando em busca de portos mais acolhedores. Vou embora e, apesar de ter sofrido, levo a certeza de que o melhor da vida é estar com quem sabe bem que me quer.

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Um dia abandonaremos o conhecido, seja impulsionados por insatisfação, necessidade ou desejo. Em algum momento chegará o fim da inocência escolar, da proteção da casa dos pais, do conforto de um abraço, do calor de um beijo, de um casamento falido, do emprego insatisfatório, da vida. Querendo ou não, partiremos. É a única certeza verdadeira. A grande certeza.

Partir é essencial. Por mais que tenhamos consciência do que, de quem, nos cerca, os fatos, detalhes ínfimos e tão importantes, pessoas, lugares, cheiros, músicas, só se tornam especiais ao virarem história; a velha mania tão humana de valorizar apenas o perdido. Ou o vivido.

Partir é a coragem de abandonar o mapeado e rumar para o incógnito, sem trilha marcada nem estrada pavimentada. É curtir o nó no estômago diante no novo, essa paisagem tão bela e pouco apreciada.

Partir nos faz mais fortes, curiosos, atentos. Atiça os sentidos. Ficamos menos dependentes e nos livramos dos grilhões (para alguns, confortadores) do familiar. Partir causa movimento porque, assim como água parada apodrece, nós corremos o risco de virar rascunhos de nós mesmos ao acostumar com a estagnação. Nada é mais perigoso do que ficarmos satisfeitos com o medíocre.

Partir pode doer para quem fica, mas não mata. Ao contrário, cria infinitas e novas possibilidades de histórias a serem desenhadas com quaisquer cores (ou ausência delas para os mais melancólicos) numa folha em branco. Num futuro todo. Numa existência plena.

Viva cada história até o último detalhe, tome até a última gota de todos seus momentos porque não há nada mais reles do que abandonar a vida por covardia, esconder-se dela detrás de falsos motivos. Não há nada mais deprimente do que alguém que finge partir quando, na verdade, está fugindo. Furtar-se a viver plenamente com toda a dor, alegria, tristeza, desamores e paixões é o mesmo que não ter nascido.

Mas vá, se sentir que precisa ir. Vá, se o que o move é impossível de domar. Não deixe o medo paralisá-lo. Ignore os que não entendem, criticam, alertam, amedrontam porque esses, enquanto você segue seu faro, escrutina o desconhecido, permanecerão no mesmíssimo lugar. Criarão musgo, não sairão do decadente quarteirão da resignação—e isso sim é assustador.

Ailin Aleixo é jornalista especializada em gastronomia, tarada por caipirinha e tarte tatin (www.gastrolandia.com.br). Foi colunista da Revista VIP e mantém o blog A Mulher Honesta (mulherhonesta.sites.uol.com.br).

Só o tempo, a ausência e as atitudes dirão.

Sou de poucos amigos. Bem poucos. Nunca fui de esperar dezenas de telefonemas sábado à noite, não faço o estilo “candidato a vereador” quando chego em festas. Odeio tapinhas nas costas e beijos dados no ar. Minha mãe sempre diz que “amigos de verdade podem ser contados nos dedos de uma só mão – e ainda sobra dedo”, e esta é uma das poucas verdades que carrego comigo. Não acredito que seja possível ter um campo de futebol lotado de amigos porque amizade envolve cumplicidade, amor, intimidade, preocupação – e, ao menos que o problema seja comigo, não vejo como oferecer dedicação a 10 000 pessoas, nem mesmo a 100, sem demagogice.

Cada um de nós é rodeado por muita gente, igualmente importante para nossa sobrevivência social (ex-namoradas, parceiros de truco, colegas de trabalho, galera da balada), mas que não pode – e não deve – ser chamada de amigos. Não só por ser incorreto, mas principalmente por fazer mal à saúde: esperar dos outros atitudes que eles não terão não é das coisas mais agradáveis da vida (e também seria estúpido exigir que cada cidadão que topasse conosco na rua se importasse profundamente com nosso estado emocional). Mas será que sabemos mesmo distinguir gregos de troianos? Acho que não. Infelizmente. E então ficamos fechados e ranzinzas, é bom dizer, por nossa própria culpa. Por nossa ingenuidade infantil.

Já aprendi algumas coisas importantes: não se deve ir a restaurante japonês de blusa branca; é melhor estar entre dois loucos que perto de um imbecil; se você não sabe para onde está indo, é provável que chegue lá; e a distância é muito mais significativa que a presença diária. Só se descobrem os amigos quando o elo material que os mantinha juntos vai pro brejo: a faculdade acaba, o time de futebol se dissolve, a empresa fecha – será que daí, sem a confortável falta de esforço (lembre que amanhã não estaremos todos aqui novamente), os cumprimentos entusiasmados e as boas-vindas efusivas a amizade sobrevive? Na minha experiência, não.

Pseudo-amigos arrumam todo o tipo de desculpas para não se encontrarem. Ainda bem, porque assim nos poupam de sua presença fajuta…

Eu não sei como você definiria amizade. E também não defino, não tenho essa pretensão. Apenas sei que meus amigos sentem quando estou triste só pelo tom da minha voz. E eu sei quando algo os aflige pelo seu modo de olhar. E prefiro levá-los pra comer pão de queijo (o Prozac mineiro) a passar um sermão insosso e inútil.

Por mais que odeie ser acordada no tranco, não me importo em atender um telefonema no meio da noite se isso servir para amenizar a aflição de um amigo.

Participamos de nossas vidas com a única intenção de que isso seja bom, construtivo e agradável.

Não preciso ir a festas, jantares, coquetéis para encontrá-los: é só pegar o telefone. E nem preciso dizer quem é. E, se a culpa do choro ou a causa da gargalhada sacana for minha, fico grata por levar uma bronca sinceramente preocupada – nada pior que pasteurizados “tudo vai ficar bem, querida”, porque nem tudo vai ficar (mas o medo diminui quando sabemos que temos com quem contar caso isso aconteça).

Nos sentimos à vontade numa ópera ou num passeio ao Capão Redondo.

Ficamos envergonhados quando mentimos ao outro – porque não há necessidade de fazê-lo. Não é pelos sucessos e vitórias que nos gostamos. Ou, pelo menos, não só por eles.

Não precisamos impressionar com frases brilhantes porque assumimos nossa humanidade. E as cagadas que fazemos – por isso também rimos delas e de nós mesmos. Afinal, nada sobrevive sem bom humor.

Amigos me fazem mais bem que uma dúzia de injeções na veia.

Ailin Aleixo é jornalista especializada em gastronomia, tarada por caipirinha e tarte tatin (www.gastrolandia.com.br). Foi colunista da Revista VIP e mantém o blog A Mulher Honesta (mulherhonesta.sites.uol.com.br).

O tédio pode significar muito mais do que você imagina

Vivemos horas nas quais tudo parece suspenso feito poeira no ar. Um irritante slow motion. Por mais que se acelere, o motor não responde ao comando. Ao redor, as coisas seguem na velocidade normal, só nós ficando pra trás a observá-las se distanciar e tomar seu rumo. E isso é tudo o que gostaríamos de ter, um rumo.

Mas não temos. Naqueles instantes, os caminhos à nossa frente parecem aborrecidos e sem cor, mas o dia está aí e o cumprimos, passando ao largo da depressão, a milhas do autocompadecimento – não estamos assolados pela tristeza. Não. O problema é que não somos assolados por nada além de um tédio indescritível. Cadê o entusiasmo? Quando ele falta, tudo o que nos toca soa igual, nada muito bom, nada muito mau. Nos enfurecemos por não estarmos felizes apesar de termos todo o material para isso. Por sentirmos uma necessidade indefinível de algo mais: mais brilhante, mais excitante, mais apaixonante. Algo forte o bastante para nos fazer acordar e ter vontade, seja lá do que for. Qualquer coisa que nos deixe famintos e sedentos. Então eles chegam, os sensatos. Dizem para recobrarmos o bom senso e entender, de uma vez por todas, que a felicidade está numa satisfação tênue, sem grandes vértices. Tarde de outono.

Numa dessas voltas da vida, ela vem e nos encontra. Durante algum tempo respiramos tranqüilos – alguns se mantêm assim até cerrarem os olhos, os sortudos -, outros notam algo de errado nessa satisfação. É comida que não sustenta, luz de relâmpago. Assustados, culpam-se por não se satisfazerem, por precisarem de outros erros, paisagens, amores, brigas. Sonham com uma sensação que jamais experimentaram e sequer sabem se existe. Crêem numa alegria maior, confiam nela. Pessoas de fé. Fé numa existência plena de sentido e esvaziada de resignação. Podem ser ingênuos, mas e daí? O que importa é a coragem de tentar ser mais.

Aceitar a mediocridade como destino nos faz rascunhos do que poderíamos ser se bancássemos nossos desejos e abolíssemos o discurso “a vida é assim mesmo”. Não é, e algo em nós sabe disso e clama por um sentido. Alguns, por pânico do desconhecido, se fingem de mortos até o questionamento passar. Infelizmente, uma hora ele passa. E leva consigo milhares de oportunidades ignoradas, não vividas.

Há pessoas que se contentam com o que suas mãos alcançam. Outras, almas inquietas, trazem em si a urgência visceral de ir além. Sabem que cada momento da busca tem uma razão, principalmente os difíceis (sem dúvida eles existirão). Seguem ao encontro da plenitude, mesmo sem saber se ela é um delírio ou uma conquista pessoal possível. Será esse o quinhão de prazer que nos cabe? Como saber se é melhor ficar com o que quase nos satisfaz ou arriscar conseguir o que realmente se deseja? Como ter certeza de que o prêmio vale o perigo?

Não dá pra ter certeza, o negócio é baseado no risco. E é quando arriscamos topar com a dor que nos tornamos inteiros. Só no instante em que decidirmos viver plenamente é que poderemos, enfim, começar a ser felizes.

Ailin Aleixo é jornalista especializada em gastronomia, tarada por caipirinha e tarte tatin (www.gastrolandia.com.br). Foi colunista da Revista VIP e mantém o blog A Mulher Honesta (mulherhonesta.sites.uol.com.br).

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