“Por que Vocês São Pobres?”

Anamarcia Vaisencher | De São Paulo [Jornal Valor Econômico]

William T. Vollmann. Conrad do Brasil. 448 págs., R$ 49,90

Não faltam teorias, explicações e hipóteses sobre a pobreza, em artigos acadêmicos, livros, na imprensa. O que não se vê é o pobre, ele mesmo, tentando explicar por que é pobre, de onde vem essa condição. O jornalista, ensaista e premiado escritor americano William T. Vollmann (ganhou o National Book Award por sua novela “Europe Central”) resolveu abordar o problema dessa forma inquisitiva, em levantamento direto de opiniões junto aos despossuidos, ali onde eles vivem o seu desamparo. Seu livro, agora publicado no Brasil, saiu em edição original nos Estados Unidos em 2007.

Entre 1992 e 2005, Vollmann percorreu dezenas de países das Américas, Ásia e África para perguntar a homens e mulheres por que são pobres. As respostas que recolheu, naturalmente desvinculadas de qualquer traço de linguagem sociológica, política ou antropológica – embora possam servir às elucubrações dos estudiosos -, têm em comum a visão fatalista da situação em que as pessoas se encontram. Iemenitas, por exemplo, que são muçulmanos, não se queixam da pobreza, porque se o fizessem estariam se mostrando ingratos para com Alá. Mexicanos, católicos, culpam os capitalistas super-ricos por sua situação. Budistas veem a pobreza como castigo por terem sido “maus em vida passada”. E há quem simplesmente não se considera pobre, apesar de todas as evidências. Os entrevistados são retratados por Vollmann em mais de uma centena de fotos.

“Obras há [sobre pobreza], mas quantos autores abordam a questão da pobreza vitalícia e involuntária?”, pergunta Vollmann. Para ele, a exceção é John Steinbeck (1902-1968) e seu “Vinhas da Ira” (1939), exceção essa que se deve muito às origens humildes do escritor, associadas à “sua empatia generosa, visitas aos trabalhadores nômades do campo e sua disponibilidade para escrever e pensar”. Quanto a si mesmo, Vollmann não gostaria de experimentar a pobreza, que, imagina, lhe causaria “medo e desespero”. Ele informa que o ensaio não foi escrito para os pobres, nem para ninguém em especial. Os pobres, aliás, não são solidários entre si. Nesse aspecto, cita o novelista francês Louis-Ferdinand Céline (1894-1961): “Os pobres nunca, ou quase nunca, pedem explicações sobre o que precisam aguentar na vida. Odeiam-se uns aos outros e se contentam com isso”.

Nas viagens que empreendeu, Vollmann conviveu cerca de uma semana com cada um de seus personagens – bêbados, prostitutas, faxineiros, criminosos, mendigos – “pessoas pobres, mas não em perigo iminente de morrer”, estando, portanto, em condições de “tomar fôlego e conceituar sua pobreza”.

Em Klong Toey, na Tailândia, Sunee, 40 anos, constantemente bêbada, mora no barraco da mãe, 67 anos, 8 filhos. Uma habitação de madeira, vincada de frestas, mas equipada com dois ventiladores, filtro de água, TV, frigobar. Casada aos 17 anos, dos 5 filhos de Sunee, 3 cursavam a universidade em 2001 e, segundo ela, “nunca apareciam”. Outro trabalhava em banco; o caçula ainda morava em casa. Quanto à própria Sunee, trabalhava em uma empresa de limpeza clandestina. Se pudesse ter alguma coisa, o que seria? Resposta: dinheiro. Sunee se considerava uma pessoa pobre? Sim, disse. Por que alguns são pobres, outros ricos? “Somos budistas. Pessoas são ricas porque deram numa vida anterior. O que deram é devolvido nesta vida. O pobre foi mau na outra vida.” Vimonrat, filha de Sunee diz o mesmo.

Em 2002, na província de Shabwa, Iêmen, Vollmann se deparou com um pescador de atum que conseguia ganhar entre 2 mil e 3 mil rials (cerca de US$ 18) por dia. “Odiava americanos e judeus, mas deixemos isso de lado, pois este livro trata da pobreza e a pobreza nunca é política”, escreve Vollmann. “Não sou nem rico nem pobre, mas sou feliz”, afirmou o pescador. Da féria diária, precisava de mil a 1,5 mil rials para viver. O resto gastava com o barco. Mas, afinal, por que Alá fez uns ricos, outros pobres? “Alá age certo com a gente. Todos podemos arranjar trabalho se tivernos sorte com Alá” Em Shabwa, Vollmann foi informado de que sua pergunta deveria ser feita a Alá. Porque “Alá dá e Alá tira”.

Vollmann diz que pobreza não é mera privação, “por que alguém pode ter menos coisas do que eu e ser mais rico; pobreza é ser miserável, é mais uma experiência do que um estado econômico”. E como ele se sente em relação aos pobres? “Às vezes, tenho medo de pessoas pobres”, e esse medo “é parte do que me define como rico”. O conceito que Vollmann assim expressa aparece em outros termos no “dicionário” que faz parte do livro: ser “pobre” é “não ter e desejar o que eu tenho” e sentir-se “infeliz em sua própria normalidade”.

Divulgação

Obra induz leitores a responderem à pergunta que consta no título