GUSTAVO CERBASI

Economia: causa ou consequência?


Seja sincero: qual o impacto que o aumento de meio ponto da inflação pode trazer em seu consumo?

AS MANCHETES da imprensa funcionam em uníssono sempre que é divulgado novo índice de inflação, nova estatística do desemprego ou quando ocorre uma reunião do Copom, para nos lembrar de que a economia mudou. Como consequência, os temas das manchetes ecoam nos corredores das empresas, nas rodas de bar e nas esteiras das academias.
Impressiono-me como uma alta de meio ponto percentual na taxa Selic é capaz de ganhar mais repercussão do que, por exemplo, a descoberta de um tratamento revolucionário contra o câncer. O Brasil transformou-se em um país de economistas sem diploma.
Em cada lar, cada igreja e cada roda de café no corredor das empresas há sempre um economista de plantão para nos informar da variação de um importante indicador.
“A Bolsa subiu forte hoje” já é uma frase comum entre casais -mesmo na cama! Pudera: há pouco menos de duas décadas, tempos de inflação elevada, quem não acompanhasse a seção de economia dos jornais não saberia o valor a receber de salário dali a dois dias, pois tudo mudava com o passar das horas.
Viciamo-nos em acompanhar indicadores econômicos. Hoje, muitos acompanham a evolução da Bolsa ou da taxa Selic com a mesma expectativa e ansiedade que já dedicaram para descobrir o assassino de Odete Roitmann.
É certo que indicadores econômicos ditam as decisões de grandes empresas e de investidores de grande porte. Porém questiono-me se essa busca pelo saber realmente agrega à maioria das pessoas. Depois de anos orientando as pessoas, por meio de livros e palestras, a se manterem informadas sobre seus investimentos, percebo que muitos acumulam informação, mas não conhecimento. Quem acredita que uma decisão do Copom, por exemplo, impacta sua vida a ponto de exigir mudança em sua estratégia de investimento ou contratação de crédito está provavelmente enganado.
Se desprezarmos o fato de que altas nos juros geralmente refletem um aumento na inflação, não é difícil demonstrar que o ganho é pequeno em uma alta de, digamos, 0,5% na Selic. Se aplicarmos R$ 10 mil hoje em um título com rendimento de 6% ao ano, teremos R$ 32.071 daqui a 20 anos. Com rendimento de 6,5%, o saldo final seria de R$ 35.236 -cerca de 10% a mais.
Se lhe parece muita diferença, saiba que se, exatamente no meio desse prazo, você resgatar o título, fizer um investimento que dobre seu capital em um ano e depois voltar a investir no mesmo título, teria um resultado final de R$ 45.384 com títulos de 6% e de R$ 49.629 com títulos de 6,5%. Em outras palavras, ganharia muito mais ao se dedicar à pesquisa de oportunidades, como um imóvel barato ou automóvel em leilão, do que perdendo tempo com mudanças de estratégia de renda fixa.
Seja sincero: qual o impacto que o aumento de meio ponto da inflação pode trazer em seu consumo? Certamente, a compra de uma peça de roupa que não será usada ou de um produto pirata que não funcionará será muito mais prejudicial a seu orçamento do que o aumento no preço do tomate. Atitude mais inteligente seria atentar aos preços em compras frequentes, evitar a compra do tomate quando ele estiver caro demais e, com isso, anular a inflação em seu orçamento.
Seremos economicamente mais eficientes quando percebermos que o impacto de nossas decisões na economia é mais importante do que o impacto da economia em nossas decisões. Sem pesquisar preços e sem praticar o orçamento, acabamos por adquirir produtos com preços em alta e, consequentemente, comprimindo nosso consumo.
Ao não pesquisar juros nos financiamentos, contribuímos para manter o “spread” bancário elevado. Ao contrair dívidas sem critério, contribuímos para a ineficiência do mercado de crédito e para o encarecimento dos empréstimos. Quem não se esforça para encontrar oportunidades sucumbe à ineficiência dos convenientes produtos de investimento de prateleira. Em vez de simplesmente conhecer a economia, procure praticá-la e transformá-la.
O país agradece.

GUSTAVO CERBASI é autor de “Casais Inteligentes Enriquecem Juntos” (ed. Gente) e “Mais Tempo, Mais Dinheiro” (Thomas Nelson Brasil).
Internet: www.maisdinheiro.com.br