MOACYR SCLIAR

Tragédia grega (versão atualizada)


Todos estavam ansiosos por resolver o problema da economia. E todos tinham de admitir a sua impotência


O primeiro-ministro grego, Giorgos Papandreou, pediu à UE (União Europeia) e aos países que fazem parte da zona do euro que contribuam para “apagar o fogo” da crise financeira no país, para que não se “propague por toda a economia europeia e mundial”.
O líder reconheceu que o país assume sua responsabilidade e disse que seu governo fará tudo para solucionar o grave endividamento, mas advertiu que a intervenção internacional é imprescindível. Folha Online

A tragédia grega impressiona. Com 2.500 anos de história e fonte inspiradora da cultura ocidental, a Grécia sofre as consequências de uma imprevisão quase inacreditável. Antonio Delfim Neto, 28 de abril de 2010

PROVAVELMENTE foi a palavra “tragédia” que desencadeou tudo. Como se sabe, a tragédia nasceu na Grécia; trata-se de uma forma teatral que frequentemente envolve um conflito entre personagens e algum poder maior, a lei, os deuses, o destino. A menção à tragédia acabou mobilizando as figuras mitológicas que há quase três milênios fazem parte da imaginação do Ocidente. Uma espécie de espontânea reunião, muito semelhante àquelas promovidas por autoridades monetárias, foi organizada no lendário Olimpo.
Ali estava uma verdadeira multidão de vultos famosos e de criaturas imaginárias. Todos queriam falar; todos estavam ansiosos por resolver o problema da economia grega.
E todos tinham de admitir a sua impotência diante das implacáveis forças do mercado. Só sei que nada sei, bradava Sócrates, repetindo o dito que o consagrara. Já Aristóteles preconizava uma atitude equilibrada diante do problema.
As pessoas, sustentava, dividem-se entre aquelas que poupam como se vivessem para sempre e aquelas que gastam como se fossem morrer amanhã; nenhuma dessas alternativas seria a solução, já que “a felicidade não se encontra nos bens exteriores”, sobretudo quando esses bens exteriores são quantificados em euro.
Platão pensava de modo semelhante, defendendo uma aproximação bem platônica ao problema. Sim, proclamava, podemos amar a economia, mas este amor, como qualquer outro, deve ser algo essencialmente puro, desprovido de paixões, como aquelas que fazem as pessoas apostar na Bolsa: o amor não se fundamenta num interesse, nem mesmo o interesse sexual, mas na virtude.
Em termos da economia, contudo, Platão era obrigado a reconhecer: não sabia que virtude seria essa. Eliminação do deficit? Talvez, mas tratava-se de tarefa hercúlea. Hércules foi, portanto, chamado, por expressa determinação de Zeus.
Veio, mas de má vontade: já tinha ouvido rumores sobre a péssima situação da economia e não queria se envolver no problema. Foi o que afirmou: eu posso matar o leão da Nemeia, mas não me peçam para enfrentar o implacável leão do fisco.
Eu posso liquidar a hidra de Lerna, mas sinto-me impotente diante do dragão da inflação. Eu posso capturar o javali de Erimanto, mas não me peçam para aprisionar o deficit externo. Eu limpo as cavalariças do rei Áugias, com toda sua sujeira acumulada, mas não tenho como enfrentar as pouco limpas negociatas financeiras.
Desesperados, deuses, filósofos e heróis foram consultar o oráculo de Delfos. Mas o lugar estava deserto. Os encarregados tinham ido consultar o FMI.

MOACYR SCLIAR escreve nesta coluna, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas no jornal.

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