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CONTARDO CALLIGARIS

Para que serve a psicanálise?


A quem luta para se manter adulto, o paternalismo dá calafrios, ou mesmo vontade de sair atirando


A ASSOCIAÇÃO Internacional de Psicanálise (IPA) foi fundada em 1910. Presente em 33 países, com mais de 12 mil membros, ela festeja seu centésimo aniversário. Aos colegas da IPA (embora eu tenha me formado numa de suas dissidências), meus sinceros parabéns.
A festa é uma boa ocasião para perguntar: para que serve, hoje, a psicanálise? A campanha eleitoral em curso me ajuda a escolher uma resposta.
Repetidamente, o presidente Lula e Dilma Rousseff se apresentam como pai e mãe dos brasileiros. Em 17/8, Lula declarou: “A palavra não é governar, a palavra é cuidar: quero ganhar as eleições para cuidar do meu povo, como a mãe cuida de seu filho”.
No dia seguinte, Marina Silva comentou: “Querem infantilizar o Brasil com essa história de pai e mãe”. Várias vozes (por exemplo, o editorial da Folha de 19/8) manifestaram um mal-estar; Gilberto Dimenstein resumiu perfeitamente: “Trazer a lógica familiar para a política significa colocar a criança recebendo a proteção de um pai em vez de um governante atendendo a um cidadão que paga imposto”.
Entendo que um presidente ou uma candidata se apresentem como pai ou mãe do povo. Embora haja precedentes péssimos (de Vargas a Stálin, ao ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-il), estou mais que disposto a acreditar que Lula e Dilma se expressem dessa forma com as melhores intenções.
O que me choca é que eleitores possam ser seduzidos pela ideia de serem cuidados como crianças e preferi-la à de serem governados como adultos.
Se o governo for paternal ou maternal, o que o cidadão espera nunca será exigível, mas sempre outorgado como um presente concedido por generosidade amorosa; o vínculo entre cidadão e governo se parecerá com o tragipastelão afetivo da vida de família: dívidas impagáveis, culpas, ciúme passional etc. Alguém gosta disso?
Numa psicanálise, descobre-se que a vida adulta é sempre menos adulta do que parece: ela é pilotada por restos e rastos da infância. Ao longo da cura, espera-se que essa descoberta nos liberte e nos permita, por exemplo, renunciar à tutela dos pais e ao prazer (duvidoso) de encarnarmos para sempre a criança “maravilhosa” com a qual eles sonhavam e talvez ainda sonhem.
Tornar-se adulto (por uma psicanálise ou não) é um processo árduo e sempre inacabado. Por isso mesmo, a quem luta para se manter adulto, qualquer paternalismo dá calafrios -ou vontade de sair atirando, como Roberto Zucco.
Roberto Succo (com “s”), veneziano, em 1981, matou a mãe e o pai; logo, fugiu do manicômio onde fora internado e, durante anos, matou, estuprou e sequestrou pela Europa afora. Em 1989, Bernard-Marie Koltès inspirou-se na história de Succo para escrever “Roberto Zucco”, peça admiravelmente encenada, hoje, em São Paulo, na praça Roosevelt, pelos Satyros.
Na peça, Zucco perpetra realmente aqueles crimes que todos perpetramos simbolicamente, para nos tornarmos adultos: “matar” o pai, a mãe e, dentro de nós, a criança que devemos deixar de ser.
O diretor da peça, Rodolfo García Vázquez, disse que Zucco é um Hamlet moderno. Claro, para Hamlet, como para Zucco, o parricídio é uma espécie de provação no caminho que leva à “maioridade”. Além disso, pai, padrasto e mãe de Hamlet eram reis, e o pai de Succo era policial. Para ambos, o Estado se confundia com a família.
Se o Estado é um pai ou uma mãe para mim, eu não tenho deveres, só dívidas amorosas, e, se esse Estado me desrespeita, é que ele me rejeita, que ele trai meu amor. Por esse caminho, amado ou traído pelo Estado, nunca me considerarei como um entre outros (o que é uma condição básica da vida em sociedade), mas sempre como a menina dos olhos do poder.
Agora, se eu me sentir traído, não me contentarei em mudar meu voto, mas procurarei vingança no corpo a corpo, quem sabe arma na mão; pois essa é a linguagem da paixão e de suas decepções. O paternalismo, em suma, semeia violência.
Enfim, se é verdade que muitos prefeririam ser objeto de cuidados maternos ou paternos a serem “friamente” governados, pois bem, nesse caso, a psicanálise ainda tem várias boas décadas de utilidade pública entre nós.
É uma boa notícia para a psicanálise. Não é uma boa notícia para o mundo fora dos consultórios.

ccalligari@uol.com.br

MÁRION STRECKER

Porra, S.A.


Não há lugar mais fácil para um desabafo que a internet; marcas precisam descobrir quando e como interferir


DESCULPE-ME pelo palavrão. Sem querer ofender, preciso chamar a atenção para a forma tantas vezes intempestiva com que o público se refere às pessoas, empresas e marcas na internet. Hoje não há lugar mais fácil, propício e conveniente para um bom desabafo do que o teclado do computador. Disponível 24 horas por dia, inclusive nos fins de semana e feriados.
É claro que sempre há um estopim para a explosão de um consumidor. Quando alguém reclama de um produto, o problema pode estar na concepção, na fabricação, na propaganda, na embalagem, no manual, na loja, no meio de cobrança, no sistema de distribuição, no atendimento pós-venda, na assistência técnica ou em outra etapa que permeie o relacionamento do cliente com a marca, incluindo o enorme desejo que o consumidor tenha pelo produto.
O desabafo é o primeiro minuto de um jogo de comunicação. Mas o tom rude e precipitado de uma reclamação pode ganhar vida eterna, se publicado num site duradouro e num sistema bem indexado pelos sites de busca do tipo Google ou Bing.
E pode ser lido, amplificado e redistribuído por um número imprevisível de pessoas ao longo do tempo, independentemente de o problema original ter sido esclarecido e resolvido a contento.
São quase 70 milhões de brasileiros com acesso à internet, dos quais 90% usam redes sociais. Surgem a cada dia na internet páginas de amor ou de ódio a pessoas, a produtos e a marcas. O McDonald’s, por exemplo, tem mais de mil páginas no Orkut. Uma delas, Eu Odeio Muito Tudo Isso, existe desde 2004 e tem 34 mil participantes, além de milhares de tópicos de discussão.
Uma página que parece oficial, Amo Muito Tudo Isso, está na casa dos 31 mil participantes no momento em que escrevo este texto.
Esses números não importam muito, já que nosso assunto não é o McDonald’s. E, como dizia Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra. O fato é que não há como impedir esse tipo de movimento. As marcas devem descobrir quando, onde e como interferir. Não é trivial.
A cada dia surgem também páginas com espírito mais brincalhão. São as do tipo Porra, Qualquer Coisa (desculpe de novo). Exemplos?
Porra, Nintendo e Porra, Arquiteto (essa é uma das mais engraçadas: porrarquiteto.tumblr.com).
A expressão, que para os mais velhos pode soar inaceitável, está se popularizando entre jovens e crianças e provavelmente deixará de ser tida como palavrão. Chega a ser empregada em tom amistoso. É um vocativo, um chamamento, um desejo de diálogo.
Penso que, em muitas dessas páginas, embora com mensagens às vezes agressivas, também transparece um sentimento positivo do público com relação ao objeto da crítica. Em outras palavras, se não se importassem, não escreveriam.
Mas, se dizem “porra”, desejam um diálogo, querem fazer graça, mas querem que algo melhore.
É preciso reagir sem rancor. O balcão de reclamações está em toda parte. Por isso começa a se disseminar a prática de monitoração de menção a marcas nas redes sociais e na internet em geral. O primeiro passo é se informar. O segundo é decidir o que fazer, se fazer e como fazer. Em geral, opinião merece simplesmente respeito. Dúvida merece esclarecimento. Gozação merece risada. E problema merece solução.
Se quem reclama tem um problema objetivo a ser solucionado, quanto mais rápido se der a solução, menor será o dano à marca.
Se a reclamação é pública, a marca pode se mostrar solícita também publicamente, conduzindo a sequência da comunicação de forma privada. É um bom exemplo de como transformar um limão numa limonada. O marketing negativo pode se tornar imediatamente positivo. A marca atacada poderá ser admirada pela agilidade e presteza.
Tenho visto muitos profissionais entrarem em redes sociais, como o Twitter, e permanecerem surdos-mudos para reclamações e abordagens do público. Por que entraram? Voyeurismo? E para que serve não entrar em redes sociais? Manter-se na ignorância?


MÁRION STRECKER, 49, jornalista, é diretora de conteúdo do UOL. Escreve mensalmente, às quintas, neste espaço.

marion@uol.com.br@marionstrecker

Cuidado: há um excêntrico perto de você

FINALMENTE SURGIU uma vantagem em ser monitorado no mundo digital. Pelo menos para os gays.
Foi criado um aplicativo gratuito que mostra quem são os gays que estão a sua volta, detalhando inclusive a distância! O Grindr (fala-se “grainder”) já foi baixado por quase um milhão de pessoas e é compatível com iPhone, iPod touch e iPad. Depois de fazer um perfil e se logar, aparecem fotos dos 20 usuários que estão mais próximos de onde você está. Daí é só começar um bate-papo e marcar um encontro, se for o caso.
No Brasil, só 4.000 pessoas baixaram o aplicativo. Se existisse uma versão hétero, ficamos pensando em quais os tipos de filtros que existiriam: pessoas que ainda gostam dos Smiths; aqueles que não gostam de acordar cedo; os héteros que não gostam de comer verdura e os artistas excêntricos egoístas. Só que nunca saberíamos a verdade, é claro, porque as pessoas mentiriam nos filtros. Assim como mentem no Facebook, no Twitter, na vida, para si mesmas e numa casinha de sapê. Seria mais útil criarem um aplicativo que possibilitasse às pessoas saber quem elas são. Mas, epa, isso não seria psicanálise?

SER ANÔNIMO É TRISTE
Outro dia um avião caiu, e os passageiros tiveram que ser resgatados do mar. Mas a grande notícia era, na verdade, uma antinotícia: a de que Xuxa pegaria a mesma aeronave no dia seguinte, caso ela não tivesse caído. Ou seja: ser anônimo no Brasil é muito triste. Ninguém liga para a gente! Mesmo se a gente estiver molhado dentro do mar poluído da Baía de Guanabara.

CARREIRA VINTAGE
Por falar em celebridade, uma das coisas mais viciantes dos últimos tempos é ler Twitter de famosos que falam coisinhas absurdas. Por exemplo: outro dia, uma famosa atriz se espantava de seu filho querer seguir uma carreira muito curiosa: sociologia! Mas que menino excêntrico! E vintage, já que não escolheu estudar moda, que, como se sabe, é a escolha de carreira do momento. Sociólogo datou.

O QUE REALMENTE IMPORTA?
Isso é tão excêntrico quanto debater política no Facebook. Afinal, onde é que já se viu querer falar de um assunto tão datado e obtuso quando podemos comentar assuntos que realmente importam, como as bolsas Chanel e os DJs da Escócia!?

Giz

Legião Urbana

Composição: Renato Russo / Dado Villa-Lobos / Marcelo Bonfá

E mesmo sem te ver
Acho até que estou indo bem
Só apareço, por assim dizer
Quando convém aparecer
Ou quando quero
Quando quero

Desenho toda a calçada
Acaba o giz, tem tijolo de construção
Eu rabisco o sol que a chuva apagou
Quero que saibas que me lembro
Queria até que pudesses me ver
És parte ainda do que me faz forte
E, pra ser honesto,
Só um pouquinho infeliz…

Mas tudo bem
Tudo bem, tudo bem…
Lá vem, lá vem, lá vem
De novo…
Acho que estou gostando de alguém
E é de ti que não me esquecerei

Quando quero…
Quando quero…
Quando quero…
Eu rabisco o sol que a chuva apagou…
Acho que estou gostando de alguém…

Mundo Monstro

Daiquiri

Níquel Náusea

Macanudo

LUIZ FELIPE PONDÉ

Abel


A espiritualidade mesquinha deforma a face do crente, iluminando seus caninos ocultos


CARO LEITOR, sou um pobre de espírito. Não daquele tipo que herdará o reino dos céus, como afirma Jesus no “Sermão da Montanha”. Não há lugar pra gente como eu no reino dos céus. Por uma razão simples: não amo ninguém mais do que a mim mesmo. E isso é mortal. Sempre foi. Os mentirosos é que tentam dizer o contrário. Não partilho da nova “ciência do egoísmo”, essa que se traduz em livros e revistas que buscam “novas formas de espiritualidade” centrada no amor próprio. Ou nessa coisa horrorosa chamada “autoestima”.
Tampouco fiz de mim um budista light, desse tipo que parasita as religiões orientais com a intenção de inventar uma espiritualidade que sirva ao clássico egoísmo moderno, numa salada mista de energias hindus com Jung barato. Antes de tudo, recuso o budismo light por um mero senso do ridículo que habita essas formas mesquinhas de espiritualidade.
Com isso quero dizer que não trocaria o reino dos céus por alguma forma quântica de paraíso egoísta, ao sabor da espiritualidade de livrarias de aeroporto do tipo “O Efeito Sombra”, cujo subtítulo é “Encontre o Poder Escondido na sua Verdade”, dos “guias espirituais” Deepak Chopra, Debbie Ford e Marianne Williamson, perfeito para almas superficiais amantes de toda forma de espiritualidade mesquinha.
O que é uma espiritualidade mesquinha? Fácil responder essa. Espiritualidade mesquinha é, antes de tudo, uma forma de crença que deforma a face do crente, iluminando seus caninos ocultos. Aquela que sempre medita com o objetivo de nos tornar mais poderosos e bem-sucedidos. Essa praga espiritual está em toda parte porque, simplesmente, não conseguimos entender que, para salvarmos nossa vida, temos que perdê-la. Jesus tinha razão.
O principal obstáculo para se libertar do mal é o “eu”. Essa peste que contamina todo ato humano. Como vampiros de Deus, queremos fazer até da “sombra” (do mal em nós) um serviçal de nosso sucesso.
Sou um pobre de espírito. Passo horas temendo o abandono, o desprezo e a indiferença. Comparando meus pequenos sucessos com os mais infelizes do que eu. Ainda bem que eles existem. Rezo para que o mundo me ame. Em meus pesadelos sempre sou o último dos amados do mundo. Quando encontro alguém melhor do que eu, perco o sono, quero destruí-lo. Sua respiração me sufoca. Sua generosidade me humilha. Seu sorriso é uma prova de que fracassei em amar o mundo.
Que o leitor apressado não pense que estou numa crise de autoestima. Que o leitor crente nessas formas de espiritualidade mesquinha não aplique psicologia barata ao que digo, tentando justificar tudo que lê com alguma hipótese acerca do cotidiano de quem escreve. Você não me conhece. Mas seguramente conhece a miséria que vos falo: quem ama alguém mais do que a si mesmo?
Não vale jogar na cara dos outros amores maternos e paternos ou filiais. Na era do “direito à felicidade do indivíduo”, até a ciência já está provando (vide o diagnóstico apresentado pelo caderno Equilíbrio desta Folha no último dia 3/8) que ter filhos é um mau negócio.
Pais e mães são mais estressados do que adultos sem filhos. E é a mesma ciência que agora “descobre” a miséria dos pais, que a cria, em grande parte, com suas demandas “cientificas” de aperfeiçoamento da função parental. Ninguém mais sabe ser pai e mãe sem a palavra de uma especialista. Como sempre digo, a mania de criar um “homem” melhor vai nos destruir a todos.
Como idiota digital que sou, busco rapidamente na internet alguma nova teoria científica ou política que prove que ninguém é melhor do que ninguém. Que nos reúna num ato de mediocridade comum. Alguma nova técnica de treinamento em recursos humanos que devolva a mim minha falsa glória. Meu objetivo é fazer inveja a Deus.
Entendo Caim em seu ódio por Abel. Ao contrário das bobagens que afirma Saramago em seu livro “Caim” -críticas típicas de quem nada entende acerca da tradição bíblica porque permaneceu infantil espiritualmente-, Caim não suportou o fato de que Abel era melhor do que ele e por isso o matou. Existe algum Abel aí ao seu lado?

ponde.folha@uol.com.br

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