JAIRO MARQUES

No bucho da vaca


Toda pessoa que vive nesse mundo paralelo já correu atrás de seus milagres ou mesmo de novidades

SEMPRE RECEBO mensagens pedindo ajuda financeira para fulano ir arrumar a funilaria avariada com um médico ninja que usa células-tronco na China ou mesmo para sicrano se submeter a um tratamento intensivo que levanta o peão da cadeira de rodas depois de seis meses de estica e puxa nos EUA.
Toda pessoa que vive nesse mundo paralelo da deficiência física ou sensorial já correu atrás de seus milagres ou mesmo de novidades “ultramega” exclusivas escondidas nas pranchetas de médicos e cientistas, geralmente malucos, para tentar voltar a ser “normal”.
Depois que contraí a paralisia infantil, minha busca pela cura, que é evidentemente legítima para todos, foi menos sofisticada que ir ao Oriente e pouco tive a palpitar, uma vez que eu era um molequinho durante as tentativas mais exóticas.
Uma receita “infalível”, que me livraria do vírus da pólio e me faria voltar a ter os movimentos dos cambitos, era me colocar dentro do bucho de uma vaca recém-abatida.
Um luxo! Naquele ambiente “ruts”, eu deveria ficar algumas horas, bem quentinho. É claro que aquilo não serviu para nada além de frustrar minha mãe e toda a família.
Não quero dizer que os doutores Ai Ki Dor que fazem tratamentos alternativos ao redor do mundo só aplicam placebos e são irresponsáveis. Mas que nunca vi reinstalarem os aplicativos em alguém e ele voltar a rodar direitinho, isso é fato.
Até hoje escuto na rua: “Isso que você tem não cura?”. Primeiramente, ter uma deficiência é ter uma condição, e não uma doença. Dentro dessa realidade, atualmente, o que é bem possível e fundamental fazer é se reabilitar.
Um “serumano” que tenha ficado tetraplégico, por exemplo, com orientações supimpas pode evoluir muito os movimentos das mãos, dos braços. Uma pessoa com paralisia cerebral pode ganhar no equilíbrio.
Os milagreiros, a meu ver, não estão escondidos do alcance geral. Eles estão, muitas vezes, bem pertinho, como nos hospitais da Rede Sarah, na AACD, no Hospital das Clínicas e em diversos centros de reabilitação que dão um “up” na qualidade de vida de qualquer deficiente disposto.
É “di certeza” que a ciência está caprichando para fazer com que as células-tronco possam auxiliar na vida de quem teve o esqueleto avariado, mas é preciso dar o tempo necessário para que os antídotos funcionem com precisão.
Reafirmo que todos têm o direito de procurar seus buchos de vaca da maneira que bem quiserem. O que não se pode perder de vista, porém, é que o tempo urge e viver de forma plena pode ser mais simples e fácil do que se expor ao intangível.

jairo.marques@grupofolha.com.br

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