MOACYR SCLIAR

A arte de jogar fora


Havia muito pensava em mudar de vida; adotou, então, a ideia do livro: livrar-se de 50 coisas desnecessárias


O livro “Jogue Fora 50 Coisas” ensina a melhorar o senso de organização. A autora Gail Blanke sustenta que o acúmulo de coisas desnecessárias atrapalha nossas vidas e propõe o exercício de jogar fora 50 delas em duas semanas. Folha Online

A LEITURA do livro foi para ela uma revelação. Havia muito tempo pensava em mudar de vida, em dar um novo rumo à sua existência, terminando com as frustrações, realizando seus sonhos de juventude. Achava, porém, que isso só poderia ser feito de maneira drástica, terminando com o casamento, saindo de casa, indo morar em algum lugar distante. Mas o livro sugeria que não precisava chegar a tais extremos. Poderia começar de maneira modesta e prática: jogando fora 50 coisas que considerasse desnecessárias. Um passo para começar a distinguir o que era realmente importante do que era apenas secundário.
Livrar-se de 50 coisas desnecessárias não seria, porém, coisa fácil. Por causa do marido. Homem autoritário, obsessivo, não queria que nada fosse jogado fora. Tudo teria de ser guardado: jornais antiquíssimos, eletrodomésticos que já não funcionavam, roupas velhas e rasgadas, e até biscoitos mofados.
Felizmente, para ele, e infelizmente para ela, a casa, herdada da família dele, era enorme: dois pisos, sótão, porão. Resultado: velharias e quinquilharias por toda a parte. O pior é que ele conhecia cada coisa, cada objeto; sabia procurá-los nos lugares onde estavam. E reclamava de qualquer mudança, por insignificante que fosse. Já despedira incontáveis empregadas por causa disso.
Mas ela estava determinada a ir em frente com seu projeto. E, quando tivesse reunido os 50 objetos de que falava o livro, não os jogaria fora apenas: trataria de queimá-los numa fogueira monumental que, além de garantir a irreversibilidade da mudança, simbolizaria o ingresso na nova fase de sua vida.
Para facilitar a tarefa, resolveu trabalhar com grupos de dez objetos. Primeiro grupo: roupas usadas do marido. Fácil, muito fácil. Meias furadas, camisas rasgadas e manchadas, paletós fora de moda: num instante a coleta terminou. Depois veio o grupo da papelada, que incluía jornais e revistas antigos.
Também foi fácil. Revistas de dez anos atrás estavam guardadas numa prateleira! Coisa completamente maluca! Foi tudo encaminhado para uma pilha no quintal.
O terceiro grupo era de livros, e aí já foi mais difícil; em muitos casos ela ficou em dúvida. Mas os volumes comidos de traça obviamente podiam ser dispensados, assim como os livros em duplicata. A pilha cresceu bastante. O quarto grupo era de equipamentos fora de uso. Também difícil.
Poderia jogar fora uma máquina de escrever manual? Uma impressora aparentemente fora de combate? De qualquer jeito deu para juntar dez itens, que foram direto para a pilha do quintal.
E aí veio o quinto grupo, o mais difícil: objetos pessoais e decorativos. Certas fotos, certos bibelôs, calendários antigos… De qualquer modo foi indo e conseguiu chegar à cifra de nove coisas descartáveis.
Faltava um décimo objeto, e ela estava pensando a respeito, quando o marido chegou. Ao ver o que a mulher estava fazendo, teve um ataque de fúria: era uma falta de respeito aquilo e ela tinha de botar tudo no lugar imediatamente.
A ordem foi, claro, cumprida. Mas ela não pôde deixar de pensar que, ao menos, tinha descoberto o quinquagésimo item a ser jogado fora.

MOACYR SCLIAR escreve uma coluna no Caderno Cotidiano da Folha de São Paulo, às segundas-feiras. O texto é uma ficção baseado em notícias publicadas na Folha.

moacyr.scliar@uol.com.br