Como em todo livro de testes, aliás, o que se aprende acima de tudo é como se sair bem em testes


Imagine que você é um médico e que poderia salvar a vida de dez pacientes de uma vez, mas com uma condição. Você teria de cancelar uma cirurgia já marcada, que iria salvar a vida de um paciente só.
A pergunta é: “Você se sentiria moralmente obrigado a cancelar essa cirurgia?”
Não precisa responder. É só um teste e faz parte de um livro recém-lançado pela editora Zahar. Em pouco mais de duzentas páginas, em formato de bolso, Julian Baggini e Jeremy Strongroom oferecem um “check-up filosófico”, por meio de perguntas variadas, às vezes difíceis, e quase sempre capciosas.
O livro se chama “Você pensa o que acha que pensa?” e se propõe a testar, por exemplo, a coerência de suas ideias sobre Deus, a sua capacidade para o raciocínio lógico ou o teor de suas expectativas sobre a imortalidade.
Dá certo trabalho responder e mais trabalho ainda fazer a totalização dos resultados. Pelo menos, no livro impresso.
Os testes, é verdade que em inglês, podem ser feitos também na internet, no site www.philosophersnet.com, e em frações de segundo dizem se o seu ateísmo, por exemplo, é para valer ou se, no meio de vinte e tantas perguntas, alguma teologia se infiltrou clandestinamente em suas convicções.
Não foi o meu caso no livro, mas é verdade que eu já tinha feito o teste pela internet, provando algumas falhas no meu ateísmo. Cabe-me agora, evidentemente, escolher entre acreditar nos resultados do livro ou nos que apareceram na internet.
Como em todo livro de testes, aliás, o que se aprende acima de tudo é como se sair bem em testes. Penei um pouco nos de lógica, por exemplo -mas a dica, naturalmente, consiste em apostar que sempre há uma “pegadinha” em jogo.
Por exemplo, você deve dizer se é válido o seguinte raciocínio: “Se eu não chegar em casa antes das seis, vou perder o noticiário. Portanto, se eu chegar em casa às seis, não vou perder o noticiário”.
Hum… Que tal o próximo? “Todos os políticos são mentirosos. Ninguém íntegro é político. Portanto, ninguém íntegro é mentiroso.”
Cuidado. O que você pensa pode não ser o que você está pensando.
Mas o livro não quer humilhar ninguém. Pelo menos, os autores tratam de não dar essa impressão.
Se, respondendo sobre Deus, o leitor se embrulhou em combinações contraditórias, a folha de resultados faz apenas a simpática observação: “Você nunca pensou bem sobre esse assunto, não é mesmo?”
Na parte das questões morais, não está necessariamente em jogo o certo ou o errado. Interessa apenas saber que tipo de moralidade você tem. Há quem se guie mais por princípios abstratos, válidos em qualquer situação, e quem julgue principalmente em função das circunstâncias reais. Se bem que falar em “circunstâncias reais”, num teste como aquele do médico com cirurgia marcada, já constitui um exagero e tanto.
Também é possível verificar se sua tendência predominante é condenar os outros ou condenar a si mesmo; e se você de fato age, no dia a dia, conforme as convicções morais que ticou na página anterior.
Como me dei muito mal nessa última parte, digo em minha defesa que as perguntas todas se referiam a hábitos de consumo em supermercados, como a aquisição de madeira certificada, ou de geleias produzidas por empresas que não exploram o trabalho infantil.
As gôndolas brasileiras não se comparam, nesse aspecto, às de Londres ou Nova York. Mas cuidado, novamente cuidado: será que é correto safar-se pondo a culpa no supermercado?
Ser ou não ser um consumidor consciente, em todo caso, vale pouco perto dos outros desafios impostos pelo livro. Trata-se de ver, afinal, quem tem “consciência consciente”. O velho Descartes se vinga dos românticos e de Dostoiévski -que tem uma citação alegremente demolida a certa altura do livro.
Por falar em citações, há um capítulo final no estilo “quiz show”, dedicado a medir os conhecimentos filosóficos do leitor. Cabe-lhe adivinhar, por exemplo, quem disse a seguinte frase.
“A vertigem angustia porque eu sinto medo não de cair no precipício, mas sim de me lançar nele”. Se você cravou Kierkegaard, como eu, está absolutamente errado. Mas quem não está, afinal de contas?

coelhofsp@uol.com.br

Marcelo Coelho é colunista do Jornal A Folha de São Paulo. Este texto foi publicado na edição de 30 de junho de 2010 no Caderno Ilustrada.