Quase ninguém ouve meus conselhos. Por quê? Talvez porque quase nenhuma das pessoas que os recebem os tenha pedido. A maioria também acha que são cheios de clichês, ingênuos ou desagradáveis para os contemplar.
Os poucos que os ouvem fazem com que eu me sinta útil -pelo menos até se arrependerem de tê-los ouvido e reclamarem dos danos que causaram.
Em suma, dar conselhos me deixa sentindo-me melhor que a pessoa que os recebe, mas só temporariamente. É como a sensação de tomar anfetamina: euforia seguida de depressão.
Nas raras ocasiões em que alguém pede um conselho meu e o ignora, eu me lembro de que a maioria nos pede a opinião para ter opções, que então rejeita.
A voz interior de cada um fala mais alto. Então, quando alguém diz “Este é o meu problema, e isto é o que acho que devo fazer. O que acha?”, eu repito o que ele sugeriu. E, geralmente, ele o aceita e adora.
Também aprendi a seguir o ditado “Em briga de marido e mulher, não se mete a colher”.
Casais em crise canibalizam quem dá conselhos. Uma vez, um amigo que era mal casado e infiel me perguntou o que fazer. Eu sugeri o divórcio. Depois de rejeitar a sugestão, contou à mulher o que eu havia sugerido. Ela o proibiu de me ver.
Outra vez, depois de eu ter apresentado dois amigos que se casaram, a mulher me perguntou se deveria deixar o marido, que vivia drogado e desempregado. Eu lhe disse que “casamento é trabalho duro”. Ela descobriu que ele era viciado em heroína, mas não antes de ele limpar toda a poupança que tinham e sumir, assim como minha amizade com ela.
Quando eram adolescentes, meus enteados me frustravam porque jovens detestam receber dicas de adultos, especialmente do padrasto. Das poucas vezes em que lhes dei algum conselho, eles me lembraram de que não eu era o pai deles.
Meu único consolo: também não ouviram o conselho dele.
Amigos desconsolados que querem um ombro para chorar também me frustram. Apesar de ser o rei de conselhos ignorados, prefiro resolver problemas a escutá-los. Quando o lamento de um amigo segue “ad nauseum”, eu o silencio com uma solução simplista.
Ouvir passivamente as desgraças alheias fascina algumas pessoas, mas a mim deprime. Sinto-me um voyeur quando leio cartas angustiadas a colunistas que respondem às dúvidas amorosas dos leitores.
Acho essas cartas e conselhos de mau gosto porque, como a pornografia, representam a performance pública de algo que deveria ser particular.
Quando alguém ignora um conselho meu, penso no ditado: “Conselho e café toma quem quer”. Quando o critica, devolvo o ditado: “Se conselho fosse bom, não seria de graça”. E, quando me culpa pelos estragos, lembro que aceitá-lo foi escolha dele. Então, aqui vai uma dica: só ofereça conselhos se estiver preparado para as consequências. Mas, se decidir não me ouvir, bem-vindo ao clube.


MICHAEL KEPP , jornalista norte-americano radicado há 26 anos no Brasil, é autor do livro de crônicas “Sonhando com Sotaque – Confissões e Desabafos de um Gringo Brasileiro” (ed. Record)www.michaelkepp.com.br

mkepp@terra.com.br

Tradução de PAULO MIGLIACCI

 

Publicado no Caderno Equilíbrio do jornal Folha de São Paulo, dia 29 de outubro de 2009.