Um homem com um chapéu preto de abas largas sentou-se bem na frente da pessoa que ocupava a cadeira ao lado da minha no teatro.
Ele chegou com algumas pessoas. Ouvi uma delas sugerir que ele tirasse o chapéu, o que recusou veementemente. A pessoa ao meu lado tocou no seu ombro e lhe pediu o favor de tirar o chapéu. Ele insistiu que não tirava.
“Mas o senhor está me impedindo de assistir à peça”, continuou ela. “Então a senhora sente lá na frente, pois eu não vou tirar o chapéu.” Acabou trocando de lugar com uma das pessoas do grupo e ficou na cadeira da ponta. Mas não tirou o chapéu. Depois, dormiu de roncar.
O homem de chapéu parecia ser uma dessas pessoas que acreditam que sua liberdade e seu poder pessoal estão em fazer valer a sua vontade.
Coincidência ou paradoxo, a peça encenada era “A Alma Boa de Setsuan”, de Brecht. No palco e na plateia, o assunto era a dificuldade, que muitos sentimos, de afirmar nossos desejos e propósitos, com receio de prejudicar ou oprimir os outros. E a dificuldade de atender a vontade dos outros, sem o risco de nos prejudicarmos.
É ilusão inocente esperar que não haja conflito entre as pessoas, quando seus propósitos são diferentes. Mas é também ilusório partir do princípio de que todo conflito desencadeia uma guerra, desfia ofensas, instaura discórdia.
Essa crença equívoca se apoia numa lógica de exclusão: ou eu ou os outros. Só prevê vencedor e perdedor. Jamais as duas partes poderiam ganhar. Não há lugar para acordos.
Talvez por isso as pessoas se sintam tão constrangidas quando presenciam outras discordando entre si. Como ocorreu no teatro: quem estava em torno dos envolvidos queria fazer de conta que não acontecia nada. Somos filhos de uma filosofia de vida individualista.
Não acredito que nos falte coragem para enfrentar discussões. O que nos falta é o sentimento de termos um mundo em comum. Não nos sentimos pertencer, em conjunto, ao mesmo mundo. Por isso, problemas da realidade, aí fora, não nos afetam.
Assim, entendemos que os problemas do país são de responsabilidade dos políticos, os de saúde, da alçada dos médicos… Reconhecemos como nossos somente os problemas que nos afetam diretamente.
Parecemos viver dentro de bolhas particulares. A perda do sentimento de pertencermos a um mundo comum nos mantém isolados uns dos outros e cada vez mais incomunicáveis.
A violência urbana e a dinâmica do universo profissional corroboram com isso. Exercemos, hoje, muito melhor a competição do que a solidariedade. O problema maior é que, quando perdemos o sentido de um mundo em comum, ficamos mortalmente atingidos na nossa condição humana. Os homens não foram criados para que vivessem sozinhos.
Um homem pode viver sem seu chapéu, mas jamais sem companhia.


DULCE CRITELLI , terapeuta existencial e professora de filosofia da PUC-SP, é autora de “Educação e Dominação Cultural” e “Analítica de Sentido” e coordenadora do Existentia – Centro de Orientação e Estudos da Condição Humana

dulcecritelli@existentia.com.br

Texto publicado no Suplemento Equilíbrio do Jornal Folha de São Paulo (15/10/2009)