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Para quem ainda não viu a Parte 1 neste blog, segue link: https://textosquegostariadeterescrito.wordpress.com/2009/09/28/o-contorno-de-gregorio-sancha/

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Quase ninguém ouve meus conselhos. Por quê? Talvez porque quase nenhuma das pessoas que os recebem os tenha pedido. A maioria também acha que são cheios de clichês, ingênuos ou desagradáveis para os contemplar.
Os poucos que os ouvem fazem com que eu me sinta útil -pelo menos até se arrependerem de tê-los ouvido e reclamarem dos danos que causaram.
Em suma, dar conselhos me deixa sentindo-me melhor que a pessoa que os recebe, mas só temporariamente. É como a sensação de tomar anfetamina: euforia seguida de depressão.
Nas raras ocasiões em que alguém pede um conselho meu e o ignora, eu me lembro de que a maioria nos pede a opinião para ter opções, que então rejeita.
A voz interior de cada um fala mais alto. Então, quando alguém diz “Este é o meu problema, e isto é o que acho que devo fazer. O que acha?”, eu repito o que ele sugeriu. E, geralmente, ele o aceita e adora.
Também aprendi a seguir o ditado “Em briga de marido e mulher, não se mete a colher”.
Casais em crise canibalizam quem dá conselhos. Uma vez, um amigo que era mal casado e infiel me perguntou o que fazer. Eu sugeri o divórcio. Depois de rejeitar a sugestão, contou à mulher o que eu havia sugerido. Ela o proibiu de me ver.
Outra vez, depois de eu ter apresentado dois amigos que se casaram, a mulher me perguntou se deveria deixar o marido, que vivia drogado e desempregado. Eu lhe disse que “casamento é trabalho duro”. Ela descobriu que ele era viciado em heroína, mas não antes de ele limpar toda a poupança que tinham e sumir, assim como minha amizade com ela.
Quando eram adolescentes, meus enteados me frustravam porque jovens detestam receber dicas de adultos, especialmente do padrasto. Das poucas vezes em que lhes dei algum conselho, eles me lembraram de que não eu era o pai deles.
Meu único consolo: também não ouviram o conselho dele.
Amigos desconsolados que querem um ombro para chorar também me frustram. Apesar de ser o rei de conselhos ignorados, prefiro resolver problemas a escutá-los. Quando o lamento de um amigo segue “ad nauseum”, eu o silencio com uma solução simplista.
Ouvir passivamente as desgraças alheias fascina algumas pessoas, mas a mim deprime. Sinto-me um voyeur quando leio cartas angustiadas a colunistas que respondem às dúvidas amorosas dos leitores.
Acho essas cartas e conselhos de mau gosto porque, como a pornografia, representam a performance pública de algo que deveria ser particular.
Quando alguém ignora um conselho meu, penso no ditado: “Conselho e café toma quem quer”. Quando o critica, devolvo o ditado: “Se conselho fosse bom, não seria de graça”. E, quando me culpa pelos estragos, lembro que aceitá-lo foi escolha dele. Então, aqui vai uma dica: só ofereça conselhos se estiver preparado para as consequências. Mas, se decidir não me ouvir, bem-vindo ao clube.


MICHAEL KEPP , jornalista norte-americano radicado há 26 anos no Brasil, é autor do livro de crônicas “Sonhando com Sotaque – Confissões e Desabafos de um Gringo Brasileiro” (ed. Record)www.michaelkepp.com.br

mkepp@terra.com.br

Tradução de PAULO MIGLIACCI

 

Publicado no Caderno Equilíbrio do jornal Folha de São Paulo, dia 29 de outubro de 2009.

Cansei de pensar em você.

Fisicamente.

Sinto dores no peito como se tivesse corrido toda a noite atrás do caminhão de lixo na tentativa desesperada de tirar de lá algo de muito valor que, por engano, joguei fora. Mas quando cheguei perto de alcançá-lo, esqueci do que se tratava.

Cansei de me ver através dos seus olhos.

Cobradores.

Você nunca me acolheu. Mesmo nos meus momentos mais frágeis, em que lágrimas de impotência ou de genuíno arrependimento rolavam pelo meu rosto, você não me colocou em seus braços. Sua primeira e única reação era me passar sermão—como uma mãe ríspida. Tudo o que eu precisava era carinho. Implorava. Do meu jeito. O único que, até então, conhecia.

Cansei de me compadecer de mim mesmo.

Nos últimos tempos, fui uma versão novelesca do que costumava ser. E odiava. Mesmo com tantas sinceras tentativas, não aprendi a dar amor a você. Por mais que se engane que sim, você não aprendeu a me dar amor. Juntos, poderíamos ter sido muito, felizes. Mas, antes, chegamos a uma bifurcação. Em vez de enxergamos duas possibilidades (talvez promissoras) de caminho, amaldiçoamos termos perdido tempo em uma rota inútil.

Cansei de pensar que poderia ter sido diferente.

Se pudesse, teria sido. Se você quisesse, teria sido. Talvez eu não estivesse a altura do seu sonho. Talvez eu fosse pouco. Hoje sei que sou muito mais do que você jamais sonhou.

Cansei de esquadrinhar se você me substituirá facilmente. Ou se já o fez.

Não posso atrelar o meu valor aos seus ímpetos sexuais nem ao seu imenso desejo de construir uma família, almoços de domingo, aniversários em bufê (desejo que compartilho e compreendo). Não vou permitir cair nesse buraco sem fundo de me sentir invisível, preterível, por não ser mais olhado por você.

Cansei de estar só.

Mesmo já estando assim há tanto, sua ausência física  trouxe a dura certeza do abandono a que me submeti. A dura certeza de quanto preciso aprender a me doar. A dura certeza de que morro de medo da solidão.

Cansei de pensar em tudo de bom.

Nossas viagens. As pousadas, as camas, os cafés da manhã.

Nossas risadas em mesas de bares.

Seus presentes fora de hora.

Nossas noites na lareira.

Suas bochechas coradas quando tomava porre.

Nossos vinhos e seus efeitos.

Seu beijo apressado, cheio de intenções.

Nossa casa tão repleta de nós que, dia-a-dia, se desfaz. Desaparece. Inexiste. Como nós.

Cansei de amá-la.

Jamais soube, verdadeiramente, o que significava amar. Não o amor oferecido amigos, família—esse é fácil de distinguir, seja pela força do sangue ou pelo poder agregador da história em comum. Nunca consegui identificar os indícios da existência do amor quando o envolvido era aquele que entrava na minha vida e permanecia, mudando tantas coisas, acertando outras tão desarrumadas há tempos, adicionando complicações e prazeres. A incerteza estava sempre lá, questionando se aquilo era amor ou apenas uma sensação prolongada de satisfação que, fatalmente, acabaria. E, se acabasse, teria sido amor?

Em algum canto de mim morava a certeza tolamente romântica de que, quando se tornase realidade, ele curaria minha ansiedade inerente e instalaria a tranquilidade tão desejada, necessária. Mas isso não aconteceu. Nunca uma pessoa apaziguou meu tumulto. Então teria sido amor?

Os fatos– tão repletos de ausência de sentido em tantos momentos– que me deixam incrédula, rancorosa, triste, seriam apenas pequenos contratempos sem importância comparados ao brilho e a dimensão que a entrada do amor daria a minha vida. Alguns homens passaram por mim, mas a ocasional frustração e raiva causadas por palavras ferinas e atos escusos – e a inevitável decepção atrelada a eles– nunca deixou de me assolar. Se a presença de nenhum deles tornou insignificante minha angústia, teria sido amor?

Jamais desejei, com urgência e paixão uterinas, ter filhos com um homem nem sonhei com uma grande mesa repleta de netos, noras e genros. Também não me imaginei, idosa, ao lado dele a passear pela rua. E me senti uma sub-espécie de mulher, isolada do resto da humanidade portadora de belos desejos a longo prazo: se nunca vislumbrei esse futuro conjunto, teria sido amor?

Demorei para aprender, mas hoje compreendo o significado de amar. O meu significado. Amar alguém é curtir o correr dos dias ao lado dele, tirando, a cada oportunidade, o peso devastador das expectativas, porque é da leveza que nasce a harmonia. É sentir (e não saber—o que faz toda a diferença) que ele precisará da minha ajuda tanto quanto eu de um ombro para descansar; que o fim não mede a beleza de uma relação, assim como a morte não anula quem fomos; que nada, nem ninguém, arrancará de mim as sensações que me fazem ser quem sou (e que precisarei, sozinha, não destruí-las, mas lidar com elas); entender que a obrigação de me salvar é absolutamente minha.

A vida vive pedindo pra gente mudar.
Isso vale para você também, sabia?
Vamos, ceda às forças internas, sem resistir.
Afinal, toda mudança é para melhor.

Olhe para trás e veja as fases de sua vida. Nem sempre foi confortável, né? Especialmente para pessoas com maneiras e idéias muito cristalizadas.
Mas é preciso estar disposto a jogar fora gradualmente as idéias que parecem boas, confortáveis e seguras.

Isso mesmo, as boas, confortáveis e seguras!!! E quando estiver completamente livre e aberto para receber idéias novas e revolucionárias, as mudanças vão acontecer em sua vida…

Pare de esperar a felicidade sem esforços. Pare de exigir das pessoas aquilo que muitas vezes nem você conseguiu conquistar. E, definitivamente, deixe de ser crítico e trabalhe mais pra você, para a sua felicidade e para o mundo, sem se esquecer de agradecer.

Agradeça a tudo que você tem na vida. Tudo! Inclusive aquilo que você chama de dor!

Nossa compreensão de mundo é muito reduzida para julgar os outros… Encare a mudança como um degrau para revelações ainda maiores e mais maravilhosas que estão aguardando lugar em você para poderem se manifestar.

Você não pode avançar para o novo se ainda está obstruído e contaminado pelo velho. Deixe-o para trás.

E tem mais: mude enquanto você tem o poder de fazer isso. Pela dor ou pelo amor, você pode mudar. Ou então saiba que alguém ou alguma situação poderão pilotar o seu processo de mudança e de transformação.

Vamos! Coragem! Você pode! Você é capaz! Supere-se!

A razão da sua vida é você mesmo!

Luiz Carlos Mazzini

Um homem com um chapéu preto de abas largas sentou-se bem na frente da pessoa que ocupava a cadeira ao lado da minha no teatro.
Ele chegou com algumas pessoas. Ouvi uma delas sugerir que ele tirasse o chapéu, o que recusou veementemente. A pessoa ao meu lado tocou no seu ombro e lhe pediu o favor de tirar o chapéu. Ele insistiu que não tirava.
“Mas o senhor está me impedindo de assistir à peça”, continuou ela. “Então a senhora sente lá na frente, pois eu não vou tirar o chapéu.” Acabou trocando de lugar com uma das pessoas do grupo e ficou na cadeira da ponta. Mas não tirou o chapéu. Depois, dormiu de roncar.
O homem de chapéu parecia ser uma dessas pessoas que acreditam que sua liberdade e seu poder pessoal estão em fazer valer a sua vontade.
Coincidência ou paradoxo, a peça encenada era “A Alma Boa de Setsuan”, de Brecht. No palco e na plateia, o assunto era a dificuldade, que muitos sentimos, de afirmar nossos desejos e propósitos, com receio de prejudicar ou oprimir os outros. E a dificuldade de atender a vontade dos outros, sem o risco de nos prejudicarmos.
É ilusão inocente esperar que não haja conflito entre as pessoas, quando seus propósitos são diferentes. Mas é também ilusório partir do princípio de que todo conflito desencadeia uma guerra, desfia ofensas, instaura discórdia.
Essa crença equívoca se apoia numa lógica de exclusão: ou eu ou os outros. Só prevê vencedor e perdedor. Jamais as duas partes poderiam ganhar. Não há lugar para acordos.
Talvez por isso as pessoas se sintam tão constrangidas quando presenciam outras discordando entre si. Como ocorreu no teatro: quem estava em torno dos envolvidos queria fazer de conta que não acontecia nada. Somos filhos de uma filosofia de vida individualista.
Não acredito que nos falte coragem para enfrentar discussões. O que nos falta é o sentimento de termos um mundo em comum. Não nos sentimos pertencer, em conjunto, ao mesmo mundo. Por isso, problemas da realidade, aí fora, não nos afetam.
Assim, entendemos que os problemas do país são de responsabilidade dos políticos, os de saúde, da alçada dos médicos… Reconhecemos como nossos somente os problemas que nos afetam diretamente.
Parecemos viver dentro de bolhas particulares. A perda do sentimento de pertencermos a um mundo comum nos mantém isolados uns dos outros e cada vez mais incomunicáveis.
A violência urbana e a dinâmica do universo profissional corroboram com isso. Exercemos, hoje, muito melhor a competição do que a solidariedade. O problema maior é que, quando perdemos o sentido de um mundo em comum, ficamos mortalmente atingidos na nossa condição humana. Os homens não foram criados para que vivessem sozinhos.
Um homem pode viver sem seu chapéu, mas jamais sem companhia.


DULCE CRITELLI , terapeuta existencial e professora de filosofia da PUC-SP, é autora de “Educação e Dominação Cultural” e “Analítica de Sentido” e coordenadora do Existentia – Centro de Orientação e Estudos da Condição Humana

dulcecritelli@existentia.com.br

Texto publicado no Suplemento Equilíbrio do Jornal Folha de São Paulo (15/10/2009)

O avião em que viajo finalmente pousa. Cautelosa, espero que a aeronave pare totalmente para relaxar por saber que cheguei sã e salva. Estou sentada numa poltrona do corredor e prefiro esperar as portas se abrirem para levantar. Não consigo: sou atropelada por um senhor, com terno de corte fino, que estava sentado ao lado da janela e tem pressa.
Ele nem sequer pede licença para passar ou espera que eu me levante: simplesmente passa por cima de minhas pernas.
Aguardo um pouco e, quando a fila caminha em direção à saída, tento sair. Dura empreitada essa: ninguém está disposto a dar passagem porque isso significa chegar atrás, mais tarde. Segundos apenas, mas mais tarde.
Encontro-me com quase todos os companheiros de viagem no ônibus que nos leva até o saguão do aeroporto e enfrento a mesma dificuldade para dele descer e chegar à esteira onde pegarei minha bagagem. Estão lá, os apressados, e vão esperar comigo a mala chegar.
A pressa tomou conta de nossas vidas. Corremos desde que acordamos. O banho é rápido -além de tudo, é preciso economizar água e energia-, o café da manhã é tomado com a leitura do jornal ou outra atividade qualquer, os filhos são empurrados para o carro e, com toda a velocidade, enfrentamos o trânsito emperrado para chegar ao nosso destino.
É no trânsito, principalmente, que constatamos a pressa de quase todos: é difícil sair da garagem, já que poucos se dispõem a esperar alguns segundos para dar passagem. Passar de uma pista para outra é tarefa para piloto de Fórmula 1: poucos deixam ser ultrapassados.
As crianças percebem desde cedo a nossa correria e a adotam. Quando bebês, os primeiros passos são dados apressadamente para garantir um equilíbrio ainda em desenvolvimento. Daí em diante, é difícil ver crianças andando: correm sem motivo nenhum. E nós, em nossa pressa, achamos natural que corram dentro de casa, na escola, onde as levamos.
Incentivamos a corrida sem fim dos mais novos: queremos que aprendam tudo rapidamente e cedo, de preferência sem exigir muito de nossa parte para que não atrapalhem a nossa própria corrida. É no futuro deles que pensamos? A justificativa que assumimos foi essa.
Mas, pensando bem, ela pode ser uma desculpa que construímos para adequar o papel educativo ao estilo de vida corrido que adotamos. Afinal, estimulando e empurrando os mais novos para essa corrida, tantas vezes desrespeitamos etapas de suas vidas, ritmos pessoais etc.
Aonde precisamos chegar com tanta pressa? Ao pensar nessas questões, ocorre-me o personagem do filme “Forrest Gump”, que, em determinado momento de sua vida, decide correr. Ele simplesmente corre: sem motivo, sem destino.
Para que não façamos o mesmo, precisamos nos perguntar diariamente: “Por que estou correndo? Será que poderia realizar a mesma coisa com mais calma e melhor?”. Desse modo, certamente poderíamos diminuir nosso alto grau de estresse, dedicar mais tempo aos filhos e, assim, ter uma vida melhor com e para eles.


ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de “Como Educar Meu Filho?” (ed. Publifolha)roselysayao@uol.com.br

blogdaroselysayao.blog.uol.com.br

Texto publicado no Suplemento Equilíbrio do Jornal Folha de São Paulo (15/10/2009).

Éramos inseparáveis na escola de jornalismo. Ele, um obcecado por fazer tudo o melhor possível; eu; com a tranqüilidade preguiçosa de alunos sem grande ambição. Paulo e Fabio. Em comum algumas coisas, como a paixão pelo Corinthians, os romances de Graham Greene e os solos de guitarra suavemente minimalistas de George Harrison. Nescau, Calipso, Coca. O amor desvairado por jogar futebol: éramos capazes de sair direto de uma sexta de madrugada, bêbados, rumo a um jogo de futebol no sábado pela manhã. Montaigne e Sêneca.Gatsby, o romance de Fitzgerald. Conhecíamos e discutíamos detalhes de Gatsby. Anotávamos trechos de livros que nos pareciam especiais, e isso era outro ponto que tínhamos em comum. O Gatsby de cada um de nós estava quase todo rabiscado. O tempo se incumbiria de dar a nós dois o destino que cada um começou a construir lá para trás.

Paulo é o que comumente se define um jornalista de sucesso. Primeiro repórter, depois editor, depois diretor de revista. Minha carreira foi menos variada. Primeiro um escritor barato. Sempre um escritor barato.

A vida nos afastou. (A vida sempre afasta os amigos da juventude. A vida é cruel como um cossaco russo nesse trabalho de afastamento de amigos.) Ficamos anos sem nos ver. Deixei pelo telefone, duas ou três vezes, recado com sua secretária. Não recebi retorno. Entendi: pessoas em alta posição nunca têm tempo para nada, ao contrário de vagabundos como eu, para os quais os minutos fluem vagarosos como a água de um riacho. Até que um dia nos encontramos por acaso numa fila de cinema. Tínhamos ambos ido ver A Mulher do Lado, de Truffaut. (Não pus, por engano, esse filme perturbador na lista de nossas paixões comuns. Agora corrijo o erro. Como falávamos desse filme em nossos dias de jovens, como elucubrávamos, como discutíamos cada cena.)

Ver meu amigo bem-sucedido na fila de A Mulher do Lado me levou imediatamente a uma constatação. Sim, ele vestia um blazer que me pareceu Armani, e imagino que fosse Rolex o relógio que tinha no pulso esquerdo. Mas, na alma, não mudara tanto assim, ou assim me pareceu ao vê-lo na fila. Estávamos ambos sozinhos. A Mulher do Lado era e é um filme sagrado para nós. E filmes sagrados, dizíamos ele e eu em nossos dias de jovens, exigem que você os veja sozinho. Para se concentrar inteiramente. No máximo, a companhia de um saco de pipocas. Nada mais.

Combinamos tomar um lanche na saída. Nada muito demorado. No dia seguinte, meu amigo tinha uma reunião bem cedo. Fomos ao Hamburguinho, outra de nossas obsessões comuns que me esqueci de listar. Miramos em silêncio respeitoso o quadro Boulevard of Broken Dreams, sobre o qual tanto falávamos lá pra trás. Na melancólica lanchonete retratada no quadro parecíamos reencontrar um pouco da juventude para sempre perdida. “Sempre invejei você”, Paulo me disse.

Pensei que fosse piada. “Invejou o quê?” Minha desimportância? Desde quando escritores fracassados despertam inveja? Eu imaginava uma estante repleta com livros escritos por mim. Um novo Dostoievski. Um novo Fitzgerald. E acabei como um colunista de assuntos sentimentais. Com dinheiro contado para comer esse sanduíche. “Ele suspirou. “Você não foi apanhado pela gaiola em que me meti. Você é dono de você. Há muito tempo eu deixei de ser dono de mim. É o preço que ambiciosos como eu pagam.”

Eu disse: “E quem não paga? Só não paga quem não pode”. Ele deu uma risada irônica. E olhou para algum lugar que era bem longe dali. “Meu pai. Meu pai não pagou.” O pai morto era uma dor constante para meu amigo. “Foi o maior homem que eu conheci. O maior jornalista. Fui bem mais longe na carreira que ele. Muitas vezes me perguntei por quê. Outro dia finalmente entendi. Fui adiante não porque fosse melhor que ele. Mas porque sou pior. Eu paguei o preço que meu pai recusou pagar.”

Era hora de ir embora. Antes de nos despedirmos, para talvez nunca mais nos encontrarmos, Paulo me disse: “Leio você. Sabe? Acho que me realizei em você. Um escritor barato. Era isso que eu queria ser. Barato e livre. Mais não tive a coragem de recusar o que as pessoas chamam de sucesso”. Então meu amigo foi em seu carro importado rumo a sua cobertura, a seu sucesso dolorido e a seu sentimento de orfandade e desamparo. Antes de partir, Paulo abriu o vidro de seu carro e gritou para mim a frase de que mais gostávamos em Gatsby. Gatsby estava derrotado, caminhando rumo ao nada, abandonado por todos os que o bajularam enquanto estava por cima, quando o narrador gritou para ele: “Ei Gatsby, você é melhor que todos eles”. Ainda hoje me comove lembrar essas palavras pungentes de Nick, o narrador. Ouvi a mesma frase de Paulo. Com uma pequena modificação. “Ei, Fabio, você é melhor que todos nós.” Nós quem, pensei depois. Os que se venderam como ele diz ter se vendido? Depois apanhei um táxi no ponto, pedi ao motorista que me deixasse na Kilts e no trajeto pensei que o sucesso é mesmo uma coisa muito engraçada.

Hoje acontece o casamento da Ritinha (que aprendi a amar muito) e do Fernando. E em retribuição ao convite de ser padrinho deste matrimônio, segue este post. Parabéns aos noivos.

Promessas de Casamento
Escrevi um texto em que afirmava que achava bonito o ritual do casamento a igreja, com seus vestidos brancos e tapetes vermelhos, mas que a única coisa que me desagradava era o sermão do padre. “Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?” Acho simplista e um pouco fora da realidade. Dou aqui novas sugestões de sermões:

– Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?
– Promete saber ser amiga(o) e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?
– Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?
– Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e portanto a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?
– Promete se deixar conhecer?
– Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?
– Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?
– Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?
– Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?
– Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja?

Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher: declaro-os maduros.

A capacidade de esquecer é o que existe de mais precioso sobre a face da Terra, sob nossas faces. Amar é indubitavelmente mais magnânimo, mas não é tão essencial quanto o esquecimento: é ele que nos mantém vivos.

O amor torna a paisagem mais bonita, mas é o bálsamo curativo do esquecimento que nos faz ter vontade de abrir os olhos para vê-la.
A paixão empresta um sentido quase mítico aos dias, mas é esquecer a excruciante tristeza perante a morte dela que nos torna aptos a nos encantar novamente dali a pouco.
Já esqueci amores inesquecíveis e sobrevivi a paixões que, tinha convicção, me matariam se terminassem.
Às vezes, cruzo na rua com fantasmas que já foram bem vivos na minha história e não deixo de sentir uma certa melancolia por perceber que aquele rosto um dia pleno de significado se tornou tão relevante quanto um outdoor de pasta de dente.
Algumas pessoas simplesmente são apagadas da memória como filmes desimportantes. Sem maldade ou intenção, apenas esmaecem até desaparecer.
É mesmo impossível manter na memória da pele todos os que passaram por nós ou sermos mantidos por todos: gente demais, espaço de menos…
O passado deve ser mantido no lugar dele e não trazido nas costas feito mochila de viajante, lotada com os erros cometidos e alegrias jamais revividas.
Para ser feliz é necessário pouca coisa além de se livrar do excesso de carga e esquecer as coisas certas.
É útil também jamais perder de vista um detalhe, afixá-lo no espelho do banheiro, repeti-lo como um mantra: absolutamente nada é para sempre, nem mesmo os sentimentos que parecem ser (a vida seria um lago estagnado se só existisse o perene).
Nunca mais haverá amor como aquele?
Ótimo, porque o novo é tão imenso que seria um desperdício se algo se repetisse.
Todo mundo passa.
E é bom que seja assim.

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