Falar logo o que se quer: essa é a receita da felicidade.

O mundo é feito por quem evita dizer não sei. E, se diz, faz logo alguma coisa pra ficar sabendo. Fernando Pessoa provavelmente não se contentava em tomar vinho do Porto no boteco e concluir que “a vida é complicada, então é melhor continuar aqui e ver a banda passar”. Galileu não devia ser um bundão que olhava o céu e se consolava: “Sei lá como é essa porcaria”. Não se faz nada nesta vida com não sei: nem estações espaciais, nem sexo. Nada.

Se os homens têm que ter resposta pra tudo? De maneira alguma. Existem perguntas para as quais não sei é o veredicto mais adequado: quem somos? Para onde vamos? Deus existe? Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Mas, se ela o olhar daquele jeito que as mulheres olham quando querem uma resposta direta e clara e perguntar: “Eu devo insistir em nós dois ou ir embora agora?”, não sei é a maior idiotice que você pode dizer. Desculpe o pragmatismo, mas é isso que sentimos. Quase nada consegue ser tão ruim quanto não fazer diferença, ainda mais quando quem está na sua frente faz. E muita.

Nessas duas inofensivas palavras há um mundo de sentimentos não compartilhados pelo questionado, e mata ignorar se eles são, mesmo minimamente, direcionados ao questionador. É um breu emocional em que não sabemos se nos jogamos no Rio Pinheiros ou nas águas de Bonito, e o outro (no caso, você) não faz a mínima questão de esclarecer.

É péssimo ficar boiando, sem saber o que esperar, pensar, fazer. Sem saber se é melhor dar no pé ou tacar fulaninho na parede e chamar de lagartixa. Sem saber se o envolvimento foi um tremendo desperdício de tempo e energia ou algo digno de pensamentos ao decorrer do dia. E sabe por que não sei é tão odioso? Por que não dá pra não saber. Ou se quer ou não. Se deseja ou não. Assim como você não fica em dúvida quando alguém te pergunta se você gosta de chocolate, cachorro ou empinar pipa. É sim ou não. Maniqueísmo puro.

Não sei é argumento de gente (mulheres também usam esse expediente) imatura demais pra arcar com as conseqüências do sim e muito medrosa pra dizer não. Dizer não sei àquela criatura é deixá-la à mercê da sua volubilidade, mantendo-a sob o jugo do “mistério”, que, na maior parte das vezes, é somente uma atroz incapacidade de lidar com as pessoas.

Se não podemos ficar confusos com relação a sentimentos? Sim, é claro. Mas mesmo no meio da confusão vislumbramos pra qual lado nos inclinamos, notamos se tendemos a resolver a questão ou se preferiríamos dar um tapa e enviá-la a Júpiter. Enfim, sabemos. Porém é necessária uma boa dose de coragem e maturidade no ato de decisão porque cada opção é, em si, uma negativa perante o mar de outros possíveis caminhos.

Decidir é ultrapassar a infantil fantasia de que podemos ter tudo, sempre, ao mesmo tempo; é a humildade de reconhecer que vovó não estava gagá quando dizia que “quem tudo quer nada tem”.

Já passei da idade dos joguinhos adolescentes “estou a fim de você mas não conto porque é sua obrigação sacar”. Se quero alguém, informo. É tão mais fácil e saudável. Claro que já ouvi não. Tudo bem, ninguém é obrigado a cair de amores por mim. Mas, na boa, prefiro um não proferido nas fuças que um não sei pairando no ar. Um chega-pra-lá pelo menos é uma definição: então posso pegar meu barquinho, sem culpa nem “serás”, e sair remando em busca de portos mais acolhedores. Vou embora e, apesar de ter sofrido, levo a certeza de que o melhor da vida é estar com quem sabe bem que me quer.