Só o tempo, a ausência e as atitudes dirão.

Sou de poucos amigos. Bem poucos. Nunca fui de esperar dezenas de telefonemas sábado à noite, não faço o estilo “candidato a vereador” quando chego em festas. Odeio tapinhas nas costas e beijos dados no ar. Minha mãe sempre diz que “amigos de verdade podem ser contados nos dedos de uma só mão – e ainda sobra dedo”, e esta é uma das poucas verdades que carrego comigo. Não acredito que seja possível ter um campo de futebol lotado de amigos porque amizade envolve cumplicidade, amor, intimidade, preocupação – e, ao menos que o problema seja comigo, não vejo como oferecer dedicação a 10 000 pessoas, nem mesmo a 100, sem demagogice.

Cada um de nós é rodeado por muita gente, igualmente importante para nossa sobrevivência social (ex-namoradas, parceiros de truco, colegas de trabalho, galera da balada), mas que não pode – e não deve – ser chamada de amigos. Não só por ser incorreto, mas principalmente por fazer mal à saúde: esperar dos outros atitudes que eles não terão não é das coisas mais agradáveis da vida (e também seria estúpido exigir que cada cidadão que topasse conosco na rua se importasse profundamente com nosso estado emocional). Mas será que sabemos mesmo distinguir gregos de troianos? Acho que não. Infelizmente. E então ficamos fechados e ranzinzas, é bom dizer, por nossa própria culpa. Por nossa ingenuidade infantil.

Já aprendi algumas coisas importantes: não se deve ir a restaurante japonês de blusa branca; é melhor estar entre dois loucos que perto de um imbecil; se você não sabe para onde está indo, é provável que chegue lá; e a distância é muito mais significativa que a presença diária. Só se descobrem os amigos quando o elo material que os mantinha juntos vai pro brejo: a faculdade acaba, o time de futebol se dissolve, a empresa fecha – será que daí, sem a confortável falta de esforço (lembre que amanhã não estaremos todos aqui novamente), os cumprimentos entusiasmados e as boas-vindas efusivas a amizade sobrevive? Na minha experiência, não.

Pseudo-amigos arrumam todo o tipo de desculpas para não se encontrarem. Ainda bem, porque assim nos poupam de sua presença fajuta…

Eu não sei como você definiria amizade. E também não defino, não tenho essa pretensão. Apenas sei que meus amigos sentem quando estou triste só pelo tom da minha voz. E eu sei quando algo os aflige pelo seu modo de olhar. E prefiro levá-los pra comer pão de queijo (o Prozac mineiro) a passar um sermão insosso e inútil.

Por mais que odeie ser acordada no tranco, não me importo em atender um telefonema no meio da noite se isso servir para amenizar a aflição de um amigo.

Participamos de nossas vidas com a única intenção de que isso seja bom, construtivo e agradável.

Não preciso ir a festas, jantares, coquetéis para encontrá-los: é só pegar o telefone. E nem preciso dizer quem é. E, se a culpa do choro ou a causa da gargalhada sacana for minha, fico grata por levar uma bronca sinceramente preocupada – nada pior que pasteurizados “tudo vai ficar bem, querida”, porque nem tudo vai ficar (mas o medo diminui quando sabemos que temos com quem contar caso isso aconteça).

Nos sentimos à vontade numa ópera ou num passeio ao Capão Redondo.

Ficamos envergonhados quando mentimos ao outro – porque não há necessidade de fazê-lo. Não é pelos sucessos e vitórias que nos gostamos. Ou, pelo menos, não só por eles.

Não precisamos impressionar com frases brilhantes porque assumimos nossa humanidade. E as cagadas que fazemos – por isso também rimos delas e de nós mesmos. Afinal, nada sobrevive sem bom humor.

Amigos me fazem mais bem que uma dúzia de injeções na veia.

Ailin Aleixo é jornalista especializada em gastronomia, tarada por caipirinha e tarte tatin (www.gastrolandia.com.br). Foi colunista da Revista VIP e mantém o blog A Mulher Honesta (mulherhonesta.sites.uol.com.br).