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PASQUALE CIPRO NETO

“Consiga sucesso com as mulheres…”


Na publicidade, às vezes as palavras não significam ou não precisam significar coisa alguma

DEPOIS DE 29 dias na África do Sul, cobrindo a Copa para a Folha, e de pouco mais de duas semanas em férias, cá estou, de volta à coluna.
É claro que nesse período não me “ausentei” do mundo, muito menos da leitura de sites, jornais etc., o que significa que, lamentavelmente, não deixei de ver/ler pérolas e pérolas. Uma delas acaba de chegar ao e-mail da coluna. Aliás, é o que dá ter e-mail público: a quantidade de bobagens que chegam é inacreditável.
E qual é a tal pérola da vez? Vamos lá, começando pelo “assunto” do e-mail: “Consiga um sucesso incrível com as mulheres!!!”. A fórmula? Vem logo na cabeça da mensagem: “Conquiste usando feromônios!!” (interessante notar que -sabe Deus por quê- agora há um ponto de exclamação a menos…).
E o que serão os benditos “feromônios”? Antes, vamos ao “subtítulo” da mensagem: “Imagine um produto afrodisíaco natural, para atrair mulheres”. Peço ainda um minutinho, para mais um “subtítulo” (que, por aparecer no meio do texto, na linguagem jornalística chamamos de “intertítulo”): “Aumente o seu poder de sedução com as mulheres!” (agora entendi por que no segundo subtítulo há um ponto de exclamação a menos; só não entendi por que não há o sinal em “Imagine um produto…”).
O prezado leitor notou a sequência de verbos (“consiga”, “conquiste”, “imagine”, “aumente”) conjugados no modo imperativo afirmativo? Bem, como se diz nas receitas, separe. Vamos falar disso já, já.
Já sei, já sei. Você quer saber o que vem a ser o tal do feromônio, não? Recorramos ao “Houaiss”: “Substância biologicamente muito ativa, secretada especialmente por insetos e mamíferos, com funções de atração sexual, demarcação de trilhas ou comunicação entre indivíduos”. O dicionário “Houaiss” diz ainda que há a forma variante “ferormônio”.
A esta altura, já me sinto (como sempre) um belo ignorante: se o tal feromônio é secretado por insetos e mamíferos, e nós somos mamíferos… Ou os mamíferos que secretam essa substância são só os “irracionais”? Uma passagem da mensagem talvez explique (ou complique) de vez: “Os feromônios! Fragrância: toque de raízes selvagens”. Que tal?
O fato é que, na linguagem publicitária, muitas vezes as palavras não significam o que significam ou não precisam significar coisa alguma. Quando o termo é técnico ou muito específico (caso de “feromônio”), então, o prato está feito.
Mas deixemos isso para lá e fixemo-nos agora na sequência de verbos no modo imperativo, que, como se sabe, é o modo da ordem, do pedido, do apelo, da súplica. A primeira dessas flexões imperativas é “consiga” (“Consiga um sucesso incrível com as mulheres!!!”). Não lhe parece no mínimo inquietante a ideia de alguém mandar alguém conseguir alguma coisa, sobretudo quando essa coisa é o sucesso com as mulheres, que virá com o simples uso dos tais feromônios, ou seja, que não exigirá esforço algum além do uso das tais substâncias ativas?
Pois é, caro leitor, o truque é velho. Consiste em convencer o possível cliente a comprar determinado produto, dando-lhe “ordens” que não parecem ordens ou missões que serão facilmente cumpridas, desde que se usem os tais miraculosos produtos. A frase final do texto não deixa dúvida: “As mulheres notarão sua presença onde quer que esteja”.
Não foi por acaso que o redator empregou “notarão” (e não “vão notar”), assim como não foi por acaso que, na primorosa “Um Índio”, Caetano Veloso usou “descerá”, “virá”, “pousará” etc. (em vez de “vai descer”, “vai vir”, “vai pousar”): a forma sintética do futuro do presente do indicativo é muito mais contundente do que a composta. A língua e seus poderes… É isso.

PASQUALE CIPRO NETO

Um beijo, África do Sul


Johannesburgo é história. Lá, é possível tomar contato direto com o que foi o ignóbil apartheid

FORAM 29 dias na África do Sul. Quando lá cheguei, um pouco antes do início da Copa, logo percebi que Johannesburgo não é o melhor lugar do mundo para passar tanto tempo longe de casa.
A cidade -que não é uma só, mas pelo menos duas, claramente demarcadas- exige um certo “treinamento” específico: não é fácil sobreviver num lugar um tanto frio e assustador, seco e, sobretudo, ostensivamente oposto ao que se entende por uma cidade. De certa forma, Johannesburgo é uma anticidade, sem lugar para as pessoas conviverem. Convém lembrar que “cidade”, “cidadão”, “civilização”, “civismo”, entre outras, são palavras cognatas, isto é, têm raiz (latina) comum.
Mas a África do Sul não é só Johannesburgo (quanta coisa bonita há em outras cidades), e Johannesburgo não é só a síntese da vida besta, “moderna”, trancada em enfadonhos shoppings, pasteurizados e pasteurizadores. Johannesburgo é sobretudo história, já que lá estão alguns dos lugares em que é possível tomar contato direto com o que foi (e, de certa forma, ainda é) o ignóbil apartheid.
É fundamental ir ao Museu do Apartheid, em que se veem fotos e documentos que nos põem diante dos olhos, da mente, da alma e do coração a realidade de uma das tantas vergonhas que a humanidade produziu. E foi nesse museu que vi uma imagem destruidora: a de uma escola para negros, em que não havia nada de nada -nem lousa, nem carteiras, nem coisa alguma.
A foto em que os alunos (e são muitos) aparecem agachados, como verdadeiros sapinhos, escrevendo num papel que está no chão, é de deixar em crise profunda até consciências minimamente sensíveis.
O Museu Hector Pieterson é outro lugar em que a alma se decompõe. Pieterson foi assassinado pela polícia, aos 13 anos, em 1976, durante uma manifestação estudantil, contrária sabe a quê? À implantação nas escolas do africâner, língua dos bôeres, holandeses colonizadores da África do Sul.
Isso mesmo, caro leitor: os estudantes de Soweto (onde ocorreu o assassinato) não aceitavam a introdução nas escolas do africâner, vista como língua do opressor. Entre os monumentos que há na entrada desse museu, chama a atenção uma queda d’água, que simboliza as lágrimas eternas da mãe do menino e de toda a comunidade de Soweto.
A África do Sul emociona, marca, punge: modifica. Não se é o mesmo depois de lá estar. Um beijo, África do Sul, para todo o sempre. É isso.

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