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MARCELO COELHO

Uma noite de verão


Duzentos anos de Chopin e de Schumann, 150 anos de Mahler… Falar dessa gente é muito arriscado


O CALOR não dá trégua, os carros que passaram na estrada, durante o dia todo, levantaram muita poeira. Boa ideia, agora à noite, regar a grama do quintal, que estava estalando de seca.
A família então estende algumas colchas no gramado. Todos se deitam, sentindo a umidade refrescar o corpo; conversam devagar, olhando as estrelas. A cena é lembrada a partir dos olhos de um menino, com seis ou sete anos no máximo.
“Estamos todos deitados, minha mãe, meu pai, meu tio, minha tia, e eu também estou deitado ali… Essas pessoas todas têm um corpo maior do que o meu. Dizem coisas suaves e sem sentido. Por alguma razão, eles todos estão aqui, todos estão nesta terra; e quem será capaz de contar, algum dia, a dor de estar nesta terra, deitado sobre a colcha, na grama, na noite de verão, entre os ruídos da noite?”
O menino adormece aos poucos, cercado da família, mas ao relento. Impregna-se dessa mistura de proteção e desabrigo, de conforto e medo, de pequenez e desproporção, que é tão típica da infância.
O menino é James Agee (1909-1955), jornalista e crítico de cinema, lembrando sua infância em Knoxville, no Tennessee. O texto está na abertura de um dos livros mais tristes que já li, “Morte na Família”, publicado há alguns anos no Brasil pela editora Germinal.
Saiu também, pela Companhia das Letras, “Elogiemos os Homens Ilustres”, longo livro de Agee sobre famílias de agricultores miseráveis durante a Grande Depressão, acompanhado das célebres fotografias de Walker Evans, curiosamente sóbrias em meio à elocução lírica do texto.
Mas lembro “Knoxville, Tennessee” não só por causa do verão, mas também porque o ano está quase acabando, e eu deixei passar sem comentário as suas principais comemorações em matéria de música clássica. Duzentos anos do nascimento de Chopin e de Schumann, 150 anos de Mahler…
Falar dessa gente é muito arriscado. Sempre haverá algum texto melhor, escrito há décadas, sobre esses compositores, que dá vontade de simplesmente copiar. Roland Barthes sobre Schumann, por exemplo: o jeito que suas melodias se “espreguiçam” sobre o piano. Ou Vladimir Jankélévitch sobre Chopin: os muitos lugares da sua música onde a morte se esconde.
Acontece que 2010 é também o centenário de nascimento do compositor americano Samuel Barber, que pôs em música essa lembrança do verão sulista escrita por Agee. Há várias versões em disco desse “Knoxville 1915″, para soprano e orquestra.
Barber é conhecido, atualmente, como o autor do inevitável “Adágio para Cordas”, ou “Adagio for Strings”, para os mais íntimos. Foi a música de “Platoon” e de muitos serviços fúnebres oficiais nos Estados Unidos.
Acho difícil julgá-lo agora, que ficou tão batido. Deve-se dizer que algumas das obras mais importantes de Samuel Barber não resistem a muitas audições.
O “Concerto para Violino, op. 14″, a primeira vez que você ouve é um deslumbramento. Mas parece que diminui e se esvazia cada vez que se volta a ele. Sem dúvida, esse tipo de coisa acontece com muitos compositores que, em meio à austeridade, à violência e à ruptura dos grandes mestres modernos, procuraram linguagens mais acessíveis, ou conservadoras, para se comunicar com o público.
Não sei se isso vai acontecer com “Knoxville, 1915″. Tudo começa com um motivo de três, quatro notas, num ritmo vagaroso, como uma cadeira de balanço. Passa um carro, passa um bonde, a música fica mais “urbana” e moderna, até chegar a hora das colchas no quintal.
Aí o tema da cadeira de balanço volta, mas as notas trocam de lugar, e parecem desdobrar-se em muitas perguntas. A voz da soprano vai alcançando estratosferas mahlerianas, enquanto o texto diz o seguinte.
“Depois de um tempo me levam para dentro, me põem para dormir, e me recebem. São essas pessoas que silenciosamente cuidam de mim, como alguém familiar e muito amado nessa casa: mas que nunca irão, não, nunca irão, não agora, nem nunca, nunca irão me dizer quem eu sou.”
Essa solidão, estranhamente, parece doer menos quando pensamos em nós, e mais quando pensamos nas pessoas a quem amamos. Não há como protegê-las delas mesmas; nem como saber quem é cada um, realmente, enquanto a noite cai.

coelhofsp@uol.com.br


Como em todo livro de testes, aliás, o que se aprende acima de tudo é como se sair bem em testes


Imagine que você é um médico e que poderia salvar a vida de dez pacientes de uma vez, mas com uma condição. Você teria de cancelar uma cirurgia já marcada, que iria salvar a vida de um paciente só.
A pergunta é: “Você se sentiria moralmente obrigado a cancelar essa cirurgia?”
Não precisa responder. É só um teste e faz parte de um livro recém-lançado pela editora Zahar. Em pouco mais de duzentas páginas, em formato de bolso, Julian Baggini e Jeremy Strongroom oferecem um “check-up filosófico”, por meio de perguntas variadas, às vezes difíceis, e quase sempre capciosas.
O livro se chama “Você pensa o que acha que pensa?” e se propõe a testar, por exemplo, a coerência de suas ideias sobre Deus, a sua capacidade para o raciocínio lógico ou o teor de suas expectativas sobre a imortalidade.
Dá certo trabalho responder e mais trabalho ainda fazer a totalização dos resultados. Pelo menos, no livro impresso.
Os testes, é verdade que em inglês, podem ser feitos também na internet, no site www.philosophersnet.com, e em frações de segundo dizem se o seu ateísmo, por exemplo, é para valer ou se, no meio de vinte e tantas perguntas, alguma teologia se infiltrou clandestinamente em suas convicções.
Não foi o meu caso no livro, mas é verdade que eu já tinha feito o teste pela internet, provando algumas falhas no meu ateísmo. Cabe-me agora, evidentemente, escolher entre acreditar nos resultados do livro ou nos que apareceram na internet.
Como em todo livro de testes, aliás, o que se aprende acima de tudo é como se sair bem em testes. Penei um pouco nos de lógica, por exemplo -mas a dica, naturalmente, consiste em apostar que sempre há uma “pegadinha” em jogo.
Por exemplo, você deve dizer se é válido o seguinte raciocínio: “Se eu não chegar em casa antes das seis, vou perder o noticiário. Portanto, se eu chegar em casa às seis, não vou perder o noticiário”.
Hum… Que tal o próximo? “Todos os políticos são mentirosos. Ninguém íntegro é político. Portanto, ninguém íntegro é mentiroso.”
Cuidado. O que você pensa pode não ser o que você está pensando.
Mas o livro não quer humilhar ninguém. Pelo menos, os autores tratam de não dar essa impressão.
Se, respondendo sobre Deus, o leitor se embrulhou em combinações contraditórias, a folha de resultados faz apenas a simpática observação: “Você nunca pensou bem sobre esse assunto, não é mesmo?”
Na parte das questões morais, não está necessariamente em jogo o certo ou o errado. Interessa apenas saber que tipo de moralidade você tem. Há quem se guie mais por princípios abstratos, válidos em qualquer situação, e quem julgue principalmente em função das circunstâncias reais. Se bem que falar em “circunstâncias reais”, num teste como aquele do médico com cirurgia marcada, já constitui um exagero e tanto.
Também é possível verificar se sua tendência predominante é condenar os outros ou condenar a si mesmo; e se você de fato age, no dia a dia, conforme as convicções morais que ticou na página anterior.
Como me dei muito mal nessa última parte, digo em minha defesa que as perguntas todas se referiam a hábitos de consumo em supermercados, como a aquisição de madeira certificada, ou de geleias produzidas por empresas que não exploram o trabalho infantil.
As gôndolas brasileiras não se comparam, nesse aspecto, às de Londres ou Nova York. Mas cuidado, novamente cuidado: será que é correto safar-se pondo a culpa no supermercado?
Ser ou não ser um consumidor consciente, em todo caso, vale pouco perto dos outros desafios impostos pelo livro. Trata-se de ver, afinal, quem tem “consciência consciente”. O velho Descartes se vinga dos românticos e de Dostoiévski -que tem uma citação alegremente demolida a certa altura do livro.
Por falar em citações, há um capítulo final no estilo “quiz show”, dedicado a medir os conhecimentos filosóficos do leitor. Cabe-lhe adivinhar, por exemplo, quem disse a seguinte frase.
“A vertigem angustia porque eu sinto medo não de cair no precipício, mas sim de me lançar nele”. Se você cravou Kierkegaard, como eu, está absolutamente errado. Mas quem não está, afinal de contas?

coelhofsp@uol.com.br

Marcelo Coelho é colunista do Jornal A Folha de São Paulo. Este texto foi publicado na edição de 30 de junho de 2010 no Caderno Ilustrada.

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