Todo mundo tem segredos. Ou pelos menos as pessoas interessantes. Nada mais chato que alguém mapeado, retilíneo, constante, bonzinho, doce, amável. Para mim, só vale a pena quem tem um cadáver no armário, uma sombra perigosa, um poço fundo. Pessoas simplórias são como muitos dias de sol seguidos: agradáveis e infinitamente entediantes.

É a falta de obviedade desperta a curiosidade. Não é à toa que os mitos nascem da dualidade, da pouca incidência de clareza sobre sua personalidade: ninguém fica embasbacado pela simplicidade do seu Zé da quitanda (no máximo, enternecido). Somos fascinados pelo que não entendemos, amamos o desconhecido—por isso mergulha-se à noite, escala-se o Himalaia, come-se fora de casa, trai-se. É só quando ultrapassamos a barreira do familiar, do seguro, que nos tornamos verdadeiramente pessoas. Menos ingênuas, é certo, mas completas.

Ter segredos é viver intensamente, é a prova de que a realidade é muito mais do que nossos forçados sorrisos de bom dia, o escritório claustrofóbico, o saldo negativo. Ter segredos é ter coragem de arcar com o peso de ser único. Porque quem não se arrisca, não faz besteira, não vive: apenas gasta o tempo que deveria ser aproveitado apaixonadamente. Apenas caminha sobre os dias rumo à morte.

“Só existe amor real depois de a solidão se tornar boa companhia, porque só quem se sente à vontade consigo mesmo pode ter algo a oferecer a quem quer que seja.”

“Amar, pra mim, é como comer manga: o prazer é diretamente proporcional à lambança e ao tempo que se demora pra tirar os fiapos. E daí se mancha? Tudo na vida tem seu preço. E algumas coisas valem cada centavo.”

“Para impressionar a namorada e mostrar-lhe que podia agir como um bravo, ele decide subir ao Morro dos Macacos para enfrentar o temido FB. Foi então que…”

Há uma campanha para que Woody Allen escolha o Rio de Janeiro como locação para um de seus próximos filmes. O que não falta são assuntos para a história. Woody sai do supermercado com o carrinho cheio e começa a descarregar a mercadoria no porta-malas do carro. Tira as verduras, a carne, o azeite e, quando enfim tira o sabão em pó – surpresa! –, aparece um cadáver no fundo do carrinho. “Quem disse que estávamos precisando disso?”, reclama sua namorada (Diane Keaton). “Você nunca presta atenção na lista de compras.” Segue-se uma tortuosa discussão, como em Annie Hall.

O filme também pode começar num consultório de psicanalista. Woody, no divã, diz à doutora (Mia Farrow, reconciliada com o ex-marido em razão do excitante projeto de filmar no Rio) que, não bastasse o abalo que sofreu em Nova York com o caso das torres gêmeas, agora vem ao Rio e assiste à cena de um helicóptero abatido no ar. “Eu levo a desgraça para onde vou”, afirma. A psicanalista, como em Zelig, intriga-se com aquele caso peculiar. Estava diante de um Zelig ao contrário: em vez do homem camaleão, que ficava igual às pessoas que tinha em volta, eram as coisas que ficavam iguais por onde ele andava. E não adiantava dizer ao paciente que Nova York conhecera um episódio único, enquanto o Rio sofria de um desfile continuado de balas perdidas, policiais ladrões, gente torrada em “micro-ondas”.

Em uma terceira possível história, o fraco e indeciso Woody, querendo mostrar à namorada (Scarlett Johansson), como em Bananas, que pode virar um bravo, decide subir ao Morro dos Macacos para caçar o temido FB. Segue-se que se revela tão audaz que acaba aclamado como o novo chefe do tráfico e então… Nenhum dos entrechos está à altura de fazer pelo Rio o que os filmes de Allen já fizeram por Londres e Barcelona, sem falar de Nova York – a câmera demorando-se nos encantos dessas cidades e no melhor que podem oferecer? Calma, apressado leitor. Ainda não chegamos ao fim. Intervalo para comprar pipoca.

***

O melhor da escolha do Rio para sediar a Olimpíada de 2016 é ter oferecido à cidade um prazo. O Rio precisa de prazos. O Brasil precisa de prazos. O pior que pode acontecer é a cidade recair nos modelos da Rio 92 e dos Jogos Pan-Americanos de 2007. Nos dois casos, armou-se uma cidade Potenkim para recepcionar os visitantes. Potenkim, para quem não sabe, era o ministro que antes da viagem da rainha Catarina da Rússia à Crimeia mandou armar cenários pelas aldeias por onde ela passaria, de modo a impressioná-la com a beleza e a prosperidade da nova conquista de seu império. É fácil armar um esquema policial-militar que garanta a tranquilidade por três semanas, mas é também uma vergonha. É contemplar os estrangeiros com uma fantasia e os nativos, condenados à volta da rotina selvagem assim que o evento termina, com um desaforo.

O prazo que o Rio ganhou é estreito a ponto de exigir ação imediata, mas largo o suficiente para o cumprimento dos objetivos. Um inimigo é a retórica, que tão brasileiramente considera que um problema está sendo enfrentado tão logo se começa a fazer discurso dizendo que está sendo enfrentado. Outro é a condescendência, tanto das autoridades quanto de eminentes cariocas, quando se refugiam no argumento de que outras cidades conhecem tanta ou mais violência, ou de que só partes da cidade são afetadas.

***

Woody não é na verdade o novo chefe do tráfico; só finge sê-lo. De dentro, empreende o trabalho de desmantelar a quadrilha. Alia-se ao governador Sérgio Cabral e também tem papel decisivo na denúncia e desestruturação da corrupção policial. Aqui a história se interrompe e aparece o aviso: “Sete anos depois…”. Sete anos depois, ei-lo de volta ao Rio para a Olimpíada. A cidade não está apenas tranquila. Também se civilizou. Ninguém estaciona nas calçadas e respeitam-se as faixas de pedestres. Woody confessa que, como o diretor cego de Dirigindo no Escuro, que simulava construir cenas que na verdade lhe eram sopradas, não teve nenhum papel na regeneração da cidade. Foi tudo obra de brasileiros, enfim honestos, sérios e devotados com vigor a uma causa. Em seus filmes, Woody Allen frequentemente faz a mocinha ficar com ele no final. Neste, ele conhece uma turista espanhola (Penélope Cruz) e o resto da história é a câmera mostrando o casal a beijar-se no alto do Corcovado, a discutir a relação enquanto caminha no calçadão de Ipanema, a confessar suas inseguranças enquanto circunda de bicicleta a Lagoa Rodrigo de Freitas, e não se sabe o que mais admirar – se os personagens, os diálogos ou a cidade. The end.

Roberto Pompeu de Toledo

Texto publicado na Revista Veja, Edição 2137 de 4 de novembro de 2009.

“Convencidos de que pensar dói e de que mudar é negativo, tateamos sozinhos no escuro, manada confusa subindo a escada rolante pelo lado errado”

“Viver é subir uma escada rolante pelo lado que desce.” Já escrevi sobre essa frase. Sim, repito alguns temas, que são parte do meu repertório, pois todo escritor, todo pintor, tem seus temas recorrentes. No alto dessa escada nos seduzem novidades e nos angustia o excesso de ofertas. Para baixo nos convocam a futilidade, o desalento ou o esquecimento nas drogas. Na dura obrigação de ser “felizes”, embora ninguém saiba o que isso significa, nossos enganos nos dirigem com mão firme numa trilha de contradições.

Ilustração Atômica Studio

Apregoa-se a liberdade, mas somos escravos de mil deveres. Oferecem-nos múltiplos bens, mas queremos mais. Em toda esquina novas atrações, e continuamos insatisfeitos. Desejamos permanência, e nos empenhamos em destruir. Nós nos consideramos modernos, mas sufocamos debaixo dos preconceitos, pois esta nossa sociedade, que se diz libertária, é um corredor com janelinhas de cela onde aprisionamos corpo e alma. A gente se imagina moderno, mas veste a camisa de força da ignorância e da alienação, na obrigação do “ter de”: ter de ser bonito, rico, famoso, animadíssimo, ter de aparecer – que canseira.

Como ficcionista, meu trabalho é inventar histórias; como colunista, é observar a realidade, ver o que fazemos e como somos. A maior parte de nós nasce e morre sem pensar em nenhuma das questões de que falei acima, ou sem jamais ouvir falar nelas. Questionar dá trabalho, é sem graça, e não adianta nada, pensamos. Tudo parece se resumir em nascer, trabalhar, arcar com dívidas financeiras e emocionais, lutar para se enquadrar em modelos absurdos que nos são impostos. Às vezes, pode-se produzir algo de positivo, como uma lavoura, uma família, uma refeição, um negócio honesto, uma cura, um bem para a comunidade, um gesto amigo.

Mas cadê tempo e disposição, se o tumulto bate à nossa porta, os desastres se acumulam – a crise e as crises, pouca trégua e nenhuma misericórdia. Angústias da nossa contraditória cultura: nunca cozinhar foi tão chique, nunca houve tantas delícias, mas comer é proibido, pois engorda ou aumenta o colesterol. Nunca se falou tanto em sexo, mas estamos desinteressados, exaustos demais, com medo de doenças. O jeito seria parar e refletir, reformular algumas coisas, deletar outras – criar novas, também. Mas, nessa corrida, parar para pensar é um luxo, um susto, uma excentricidade, quando devia ser coisa cotidiana como o café e o pão. Para alguns, a maioria talvez, refletir dá melancolia, ficar quieto é como estar doente, é incômodo, é chato: “Parar para pensar? Nem pensar! Se fizer isso eu desmorono”. Para que questionar a desordem e os males todos, para que sair da rotina e querer descobrir um sentido para a vida, até mesmo curtir o belo e o bom, que talvez existam? Pois, se for ilusão, a gente perdeu um precioso tempo com essa bobajada, e aí o ônibus passou, o bar fechou, a festa acabou, a mulher fugiu, o marido se matou, o filho… nem falar.

Então vamos ao nosso grande recurso: a bolsinha de medicamentos. A pílula para dormir e a outra para acordar, a pílula contra depressão (que nos tira a libido) e a outra para compensar isso (que nos rouba a naturalidade), e aquela que ninguém sabe para que serve, mas que todo mundo toma. Fingindo não estar nem aí, parecemos modernos e espertos, e queremos o máximo: que para alguns é enganar os outros; para estes, é grana e poder, beleza e prestígio; para aqueles, é delírio e esquecimento.

Para uns poucos, é realizar alguma coisa útil, ser honrado, apreciar a natureza, sentir o calor humano e partilhar afeto. Mas, em geral medicados, padronizados, desesperados, medíocres ou heroicos, amorosos ou perversos, nos achando o máximo ou nos sentindo um lixo, carregamos a mala da culpa e a mochila da ansiedade. Refletindo, veríamos que somos apenas humanos, e que nisso existe alguma grandeza. Mas, convencidos de que pensar dói e de que mudar é negativo, tateamos sozinhos no escuro, manada confusa subindo a escada rolante pelo lado errado.

 

Lya Luft é escritora e colunista da Revista Veja. Texto publicado na edição 2119 de 1º de julho de 2009.

Quem ainda não assistiu, vale a pena conferir.

Este é a crítica de Isabela Boscov,

publicado na sessão Cinema da Revista Veja

Edição 2133 / 7 de outubro de 2009.


Em Bastardos Inglórios, uma unidade voluntária de soldados judeus espalha o pânico entre os nazistas na França ocupada. É uma fantasia típica de Quentin Tarantino – mas, da escrita soberba à escolha dos atores excelentes, denota o avanço notável do diretor rumo à maturidade pessoal e artística

Em 1941, diante de uma pequena casa de fazenda, em algum lugar montanhoso da França, o sol brilha, os sinos das vacas são ouvidos ao longe e o pai corta lenha, enquanto a filha pendura a roupa no varal. Pelo lado do lençol que se levanta com o vento, porém, ela vê um grupo de soldados vindo pela estrada, e imediatamente esse quadro tão pitoresco de rusticidade ganha um caráter diverso. Em vez da paz rural, o que se percebe agora é o isolamento da casa e quanto o pai e suas três filhas estão indefesos ali. Ajuda muito que a trilha escolhida para a cena seja um trecho original de Ennio Morricone para os faroestes-espaguete de Sergio Leone, capaz de anunciar como nenhuma outra coisa jamais composta para o cinema a solidão e o perigo. Mas os enquadramentos exímios e o tempo impecável em que transcorre essa sequência de abertura de Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, Estados Unidos/Alemanha, 2009), que estreia no país na próxima sexta-feira, são obra e graça de Quentin Tarantino – tanto eles como a destreza com que o fazendeiro francês e o tenente-coronel alemão Hans Landa, que acabou de chegar com seus soldados, vão descrever círculos um em torno do outro, num enfrentamento que tem como objeto o paradeiro de uma família judia, e em que as armas serão um copo de leite, dois cachimbos, as três meninas e o domínio de ambos os personagens do inglês e do francês.

Na maneira como Tarantino retrai e prolonga o tempo previsto para chegar ao desfecho, essa abertura é eletrizante. E ilustra também a distância que o diretor vem percorrendo rumo à maturidade, em um caminho já indicado na segunda parte de Kill Bill. Tarantino é capaz, agora, de imaginar não só um jogo entre dois personagens, mas um porquê para ele que vá além de suas contingências narrativas. Consegue ouvir a beleza de um diálogo travado, não meramente disparado. E aprendeu a apreciar a utilidade emocional da pausa e dos pequenos milagres que os bons atores podem proporcionar. O pouco conhecido Denis Menochet, que interpreta o fazendeiro, é excelente, e com cada pequeno gesto acumula mais algum dado sobre a vida e o passado de seu personagem, ainda que nem uma palavra se diga sobre eles. E o ainda menos conhecido Christoph Waltz, que faz o nazista, é espetacular: um ator de precisão absoluta, que rouba o filme com a anuên-cia do diretor – e dos outros atores, igualmente galvanizados por sua performance.

O tenente-coronel Hans Landa, assim, será ainda mais essencial para o filme do que os próprios bastardos inglórios – uma unidade especial de soldados judeus voluntários, que penetram na França ocupada para assassinar nazistas com selvageria e dessa forma espalhar o pânico. Liderados pelo tenente Aldo “O Apache” Raine (Brad Pitt), um matuto do Tennessee com um sotaque caipira mais espesso que melaço e o hábito de escalpelar suas vítimas, os bastardos são uma criação típica de Tarantino (que, claro, não deixou de ser ele mesmo): um grupo de homens que se comunicam por meio de frases de efeito – bom efeito, aliás – e se dedicam à violência com prazer, sem pesar nem drama de consciência. Quando eles estão em cena, o filme adquire continuidade com os outros do diretor em tema, estilo e volume bruto de sangue. Quando não,Bastardos Inglórios assinala uma espécie de ruptura.

Em um processo análogo ao do canadense David Cronenberg, que depois de explorar a fundo as possibilidades da escatologia se renovou com o classicismo de Marcas da ViolênciaSenhores do Crime, Tarantino estuda aqui as propriedades desestabilizadoras da elegância. Cada ato do filme agrupa um determinado número de personagens em um cenário delimitado – uma taverna, um cinema, uma mesa de restaurante. Todos tratam de alguém dissimulando e correndo grande risco; mas os duelos são travados por meio de insinuações. Assim, a estrela de cinema e agente dupla Bridget von Hammersmark (a alemã Diane Kruger, que depois de quase afundar com Troiahoje só faz brilhar) tem de colocar aliados e alemães em volta de uma rodada de bebidas sem que ninguém se traia, e de forma a que aquilo que tem de ser descoberto o seja. A judia disfarçada Shosanna (Mélanie Laurent), por sua vez, tem de repudiar as atenções insistentes de um herói de guerra nazista (Daniel Brühl) sem antagonizá-lo – e ambas, em momentos diversos, terão de sobreviver aos ataques de cordialidade, efusão e malevolência do tenente-coronel Landa. Tão fabulosa é a escrita dessas cenas que a mera menção a um copo de leite causa uma vertigem de medo.

Bastardos Inglórios, contudo, não é um filme sobre a II Guerra. Não é nem mesmo uma história fantasiosa passada na II Guerra, já que trata de dois complôs paralelos para pulverizar, literalmente, o alto-comando nazista. É um filme passado em todos os outros filmes já feitos sobre o tema, com vários elementos dos noir dos anos 30 e dos faroestes de John Ford e Sergio Leo-ne acrescidos à sua encenação. É um filme que pertence só à história do cinema, não à outra, a mais ampla. Mas, como no segundo Kill Bill, Tarantino mostra que descobriu a existência de outro mundo para além desse território imaginário – e que entendeu que, quanto mais se alimentar dele, mais verossímil e envolvente será sua fantasia.

Quase ninguém ouve meus conselhos. Por quê? Talvez porque quase nenhuma das pessoas que os recebem os tenha pedido. A maioria também acha que são cheios de clichês, ingênuos ou desagradáveis para os contemplar.
Os poucos que os ouvem fazem com que eu me sinta útil -pelo menos até se arrependerem de tê-los ouvido e reclamarem dos danos que causaram.
Em suma, dar conselhos me deixa sentindo-me melhor que a pessoa que os recebe, mas só temporariamente. É como a sensação de tomar anfetamina: euforia seguida de depressão.
Nas raras ocasiões em que alguém pede um conselho meu e o ignora, eu me lembro de que a maioria nos pede a opinião para ter opções, que então rejeita.
A voz interior de cada um fala mais alto. Então, quando alguém diz “Este é o meu problema, e isto é o que acho que devo fazer. O que acha?”, eu repito o que ele sugeriu. E, geralmente, ele o aceita e adora.
Também aprendi a seguir o ditado “Em briga de marido e mulher, não se mete a colher”.
Casais em crise canibalizam quem dá conselhos. Uma vez, um amigo que era mal casado e infiel me perguntou o que fazer. Eu sugeri o divórcio. Depois de rejeitar a sugestão, contou à mulher o que eu havia sugerido. Ela o proibiu de me ver.
Outra vez, depois de eu ter apresentado dois amigos que se casaram, a mulher me perguntou se deveria deixar o marido, que vivia drogado e desempregado. Eu lhe disse que “casamento é trabalho duro”. Ela descobriu que ele era viciado em heroína, mas não antes de ele limpar toda a poupança que tinham e sumir, assim como minha amizade com ela.
Quando eram adolescentes, meus enteados me frustravam porque jovens detestam receber dicas de adultos, especialmente do padrasto. Das poucas vezes em que lhes dei algum conselho, eles me lembraram de que não eu era o pai deles.
Meu único consolo: também não ouviram o conselho dele.
Amigos desconsolados que querem um ombro para chorar também me frustram. Apesar de ser o rei de conselhos ignorados, prefiro resolver problemas a escutá-los. Quando o lamento de um amigo segue “ad nauseum”, eu o silencio com uma solução simplista.
Ouvir passivamente as desgraças alheias fascina algumas pessoas, mas a mim deprime. Sinto-me um voyeur quando leio cartas angustiadas a colunistas que respondem às dúvidas amorosas dos leitores.
Acho essas cartas e conselhos de mau gosto porque, como a pornografia, representam a performance pública de algo que deveria ser particular.
Quando alguém ignora um conselho meu, penso no ditado: “Conselho e café toma quem quer”. Quando o critica, devolvo o ditado: “Se conselho fosse bom, não seria de graça”. E, quando me culpa pelos estragos, lembro que aceitá-lo foi escolha dele. Então, aqui vai uma dica: só ofereça conselhos se estiver preparado para as consequências. Mas, se decidir não me ouvir, bem-vindo ao clube.


MICHAEL KEPP , jornalista norte-americano radicado há 26 anos no Brasil, é autor do livro de crônicas “Sonhando com Sotaque – Confissões e Desabafos de um Gringo Brasileiro” (ed. Record)www.michaelkepp.com.br

mkepp@terra.com.br

Tradução de PAULO MIGLIACCI

 

Publicado no Caderno Equilíbrio do jornal Folha de São Paulo, dia 29 de outubro de 2009.

Cansei de pensar em você.

Fisicamente.

Sinto dores no peito como se tivesse corrido toda a noite atrás do caminhão de lixo na tentativa desesperada de tirar de lá algo de muito valor que, por engano, joguei fora. Mas quando cheguei perto de alcançá-lo, esqueci do que se tratava.

Cansei de me ver através dos seus olhos.

Cobradores.

Você nunca me acolheu. Mesmo nos meus momentos mais frágeis, em que lágrimas de impotência ou de genuíno arrependimento rolavam pelo meu rosto, você não me colocou em seus braços. Sua primeira e única reação era me passar sermão—como uma mãe ríspida. Tudo o que eu precisava era carinho. Implorava. Do meu jeito. O único que, até então, conhecia.

Cansei de me compadecer de mim mesmo.

Nos últimos tempos, fui uma versão novelesca do que costumava ser. E odiava. Mesmo com tantas sinceras tentativas, não aprendi a dar amor a você. Por mais que se engane que sim, você não aprendeu a me dar amor. Juntos, poderíamos ter sido muito, felizes. Mas, antes, chegamos a uma bifurcação. Em vez de enxergamos duas possibilidades (talvez promissoras) de caminho, amaldiçoamos termos perdido tempo em uma rota inútil.

Cansei de pensar que poderia ter sido diferente.

Se pudesse, teria sido. Se você quisesse, teria sido. Talvez eu não estivesse a altura do seu sonho. Talvez eu fosse pouco. Hoje sei que sou muito mais do que você jamais sonhou.

Cansei de esquadrinhar se você me substituirá facilmente. Ou se já o fez.

Não posso atrelar o meu valor aos seus ímpetos sexuais nem ao seu imenso desejo de construir uma família, almoços de domingo, aniversários em bufê (desejo que compartilho e compreendo). Não vou permitir cair nesse buraco sem fundo de me sentir invisível, preterível, por não ser mais olhado por você.

Cansei de estar só.

Mesmo já estando assim há tanto, sua ausência física  trouxe a dura certeza do abandono a que me submeti. A dura certeza de quanto preciso aprender a me doar. A dura certeza de que morro de medo da solidão.

Cansei de pensar em tudo de bom.

Nossas viagens. As pousadas, as camas, os cafés da manhã.

Nossas risadas em mesas de bares.

Seus presentes fora de hora.

Nossas noites na lareira.

Suas bochechas coradas quando tomava porre.

Nossos vinhos e seus efeitos.

Seu beijo apressado, cheio de intenções.

Nossa casa tão repleta de nós que, dia-a-dia, se desfaz. Desaparece. Inexiste. Como nós.

Cansei de amá-la.

Jamais soube, verdadeiramente, o que significava amar. Não o amor oferecido amigos, família—esse é fácil de distinguir, seja pela força do sangue ou pelo poder agregador da história em comum. Nunca consegui identificar os indícios da existência do amor quando o envolvido era aquele que entrava na minha vida e permanecia, mudando tantas coisas, acertando outras tão desarrumadas há tempos, adicionando complicações e prazeres. A incerteza estava sempre lá, questionando se aquilo era amor ou apenas uma sensação prolongada de satisfação que, fatalmente, acabaria. E, se acabasse, teria sido amor?

Em algum canto de mim morava a certeza tolamente romântica de que, quando se tornase realidade, ele curaria minha ansiedade inerente e instalaria a tranquilidade tão desejada, necessária. Mas isso não aconteceu. Nunca uma pessoa apaziguou meu tumulto. Então teria sido amor?

Os fatos– tão repletos de ausência de sentido em tantos momentos– que me deixam incrédula, rancorosa, triste, seriam apenas pequenos contratempos sem importância comparados ao brilho e a dimensão que a entrada do amor daria a minha vida. Alguns homens passaram por mim, mas a ocasional frustração e raiva causadas por palavras ferinas e atos escusos – e a inevitável decepção atrelada a eles– nunca deixou de me assolar. Se a presença de nenhum deles tornou insignificante minha angústia, teria sido amor?

Jamais desejei, com urgência e paixão uterinas, ter filhos com um homem nem sonhei com uma grande mesa repleta de netos, noras e genros. Também não me imaginei, idosa, ao lado dele a passear pela rua. E me senti uma sub-espécie de mulher, isolada do resto da humanidade portadora de belos desejos a longo prazo: se nunca vislumbrei esse futuro conjunto, teria sido amor?

Demorei para aprender, mas hoje compreendo o significado de amar. O meu significado. Amar alguém é curtir o correr dos dias ao lado dele, tirando, a cada oportunidade, o peso devastador das expectativas, porque é da leveza que nasce a harmonia. É sentir (e não saber—o que faz toda a diferença) que ele precisará da minha ajuda tanto quanto eu de um ombro para descansar; que o fim não mede a beleza de uma relação, assim como a morte não anula quem fomos; que nada, nem ninguém, arrancará de mim as sensações que me fazem ser quem sou (e que precisarei, sozinha, não destruí-las, mas lidar com elas); entender que a obrigação de me salvar é absolutamente minha.

A vida vive pedindo pra gente mudar.
Isso vale para você também, sabia?
Vamos, ceda às forças internas, sem resistir.
Afinal, toda mudança é para melhor.

Olhe para trás e veja as fases de sua vida. Nem sempre foi confortável, né? Especialmente para pessoas com maneiras e idéias muito cristalizadas.
Mas é preciso estar disposto a jogar fora gradualmente as idéias que parecem boas, confortáveis e seguras.

Isso mesmo, as boas, confortáveis e seguras!!! E quando estiver completamente livre e aberto para receber idéias novas e revolucionárias, as mudanças vão acontecer em sua vida…

Pare de esperar a felicidade sem esforços. Pare de exigir das pessoas aquilo que muitas vezes nem você conseguiu conquistar. E, definitivamente, deixe de ser crítico e trabalhe mais pra você, para a sua felicidade e para o mundo, sem se esquecer de agradecer.

Agradeça a tudo que você tem na vida. Tudo! Inclusive aquilo que você chama de dor!

Nossa compreensão de mundo é muito reduzida para julgar os outros… Encare a mudança como um degrau para revelações ainda maiores e mais maravilhosas que estão aguardando lugar em você para poderem se manifestar.

Você não pode avançar para o novo se ainda está obstruído e contaminado pelo velho. Deixe-o para trás.

E tem mais: mude enquanto você tem o poder de fazer isso. Pela dor ou pelo amor, você pode mudar. Ou então saiba que alguém ou alguma situação poderão pilotar o seu processo de mudança e de transformação.

Vamos! Coragem! Você pode! Você é capaz! Supere-se!

A razão da sua vida é você mesmo!

Luiz Carlos Mazzini

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